05 de novembro de 2026

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Depois da eleição, o silêncio que separa famílias, amigos e colegas

Artigos Diálogo 05/11/2026 13:26 Luciano Claudino | LC Agência

Dados mostram que 71% dos brasileiros mudaram o jeito de usar o WhatsApp para evitar conflito e 56% têm medo de dar opinião política. O estrategista Luciano Claudino explica como o silêncio após a eleição afeta famílias e empresas e dá dicas para discordar sem romper relações.

No domingo do segundo turno, no começo da noite, os celulares começaram a vibrar. Em muitos grupos de família, alguém mandou fogos de artifício. Outro respondeu com uma carinha triste. Um terceiro saiu do grupo sem dizer nada. Na segunda de manhã, o grupo da empresa amanheceu com bom dia, previsão do tempo e um silêncio esquisito sobre o único assunto em que todo mundo estava pensando.

Quem já passou por isso sabe que esse silêncio tem pouco de paz. Parece mais uma trégua numa guerra que não tem previsão de acabar.

  • 71% dos brasileiros mudaram o jeito de usar o WhatsApp desde 2018 para evitar conflito.
  • Quase três em cada dez já saíram de algum grupo por não se sentirem livres para falar de política.
  • 56% disseram ter medo de dar opinião porque o ambiente ficou agressivo demais.
  • A pesquisa ouviu mais de 3 mil brasileiros e foi feita pelo InternetLab com a Rede Conhecimento Social.
  • O especialista propõe trocar o ringue pela mesa: um jeito de discordar sem romper relações.

Os números ajudam a medir o tamanho da coisa. Uma pesquisa do InternetLab com a Rede Conhecimento Social, que ouviu mais de 3 mil brasileiros, mostrou que 71% mudaram o jeito de usar o WhatsApp desde 2018 para evitar conflito. Quase três em cada dez já saíram de algum grupo por não se sentirem livres para falar de política. E 56% disseram ter medo de dar opinião porque o ambiente ficou agressivo demais.

O brasileiro encontrou uma saída para a briga. Ficou quieto.

O que é o ringue da conversa política

Em Falo, logo existo!, chamo de ringue o formato de conversa feito para produzir reação: dois lados, um placar, um cronômetro e uma plateia esperando o golpe. Campanha eleitoral é ringue por natureza. Tem data para acabar, tem vencedor e tem perdedor. Faz parte do jogo.

O problema começa quando o ringue sai do palco. Durante meses, a gente aprendeu a ler a mensagem do tio como ataque, a resposta da colega como provocação e o silêncio do cunhado como confissão. A campanha terminou. O jeito de ler os outros ficou.

E no grupo da família ninguém soa o gongo. Por isso a briga de outubro vira mágoa em novembro, e a mágoa de novembro esvazia a mesa de Natal.

Votar encerra a disputa, mas não a convivência

Votar encerra a disputa, mas não a convivência. Comunicação pacificada costuma ser confundida com duas coisas. Uma é concordar com todo mundo. A outra é fingir que a eleição não aconteceu. Nenhuma das duas resolve.

A democracia depende de um detalhe pouco lembrado: quem perdeu precisa continuar conversando com quem ganhou. A urna decide quem governa pelos próximos quatro anos. Não decide como a gente vai dividir o elevador, o churrasco e a reunião de segunda-feira. Um país em que metade da população não consegue falar com a outra metade continua votando, mas para de conversar. Aí a próxima eleição começa no dia seguinte à última.

Por isso trato a boa conversa como um ativo. Saber discordar sem romper é patrimônio, como confiança e reputação. Leva anos para construir e pode ser perdido numa tarde. A família que discute política no almoço sem ninguém levantar da mesa tem um capital que vale mais do que qualquer resultado de urna. Com a empresa acontece o mesmo.

Como desarmar a conversa no dia a dia

Mas como desarmar a conversa

Ninguém desarma um grupo de WhatsApp com um textão sobre tolerância. Desarma com gestos pequenos, repetidos, quase sem ninguém perceber. Alguns que tenho visto funcionar: separar o voto da pessoa. O voto foi um dia. A pessoa é a vida inteira. Teu irmão não virou outro porque apertou um número diferente do teu.

Trocar a pergunta. Como é que você conseguiu votar nisso encerra a conversa antes de ela começar. O que mais te preocupava nessa eleição abre. Quase sempre a resposta se parece com a nossa: emprego, segurança, o preço do mercado, o futuro dos filhos. A gente discorda muito mais sobre o caminho do que sobre o destino.

Não comemorar em cima de ninguém, e também não anunciar o fim do mundo. Quem ganhou não precisa transformar o grupo em arquibancada. Quem perdeu não precisa transformá-lo em velório. As duas atitudes têm o mesmo efeito: obrigam o outro lado a responder.

No trabalho, o tom vem de cima. O gestor que provoca no grupo da equipe autoriza todo mundo a provocar. O que muda de assunto com elegância ensina que ali o assunto é outro. Ninguém está proibindo nada. É só saber onde se está.

E, se passou do ponto, pedir desculpas sem o se. Nada de se eu te ofendi. Basta um eu exagerei. Custa pouco e conserta muita coisa.

O silêncio por medo também cobra um preço

Ficar quieto parece a saída mais segura. Só que o silêncio por medo cobra seu preço. As pessoas param de se ouvir, cada uma se fecha no seu canto, e a próxima campanha encontra o terreno pronto para mais briga.

A urna fechou no fim da tarde de 25 de outubro. A mesa não tem hora para fechar. Ela continua lá, com os mesmos lugares de sempre. Cabe a cada um de nós decidir se volta a sentar.

Sobre o autor: Luciano Claudino é autor de Falo, logo existo!, estrategista político e consultor de investimentos há mais de 15 anos. Transformou sua experiência em comunicação e influência em uma investigação sobre o poder das palavras.