Especialista defende que a redução das desigualdades no trabalho depende de metas e indicadores, e que as empresas devem manter seus compromissos de diversidade mesmo sem pressão política ou regulatória.
A reeleição do presidente Lula cria novas expectativas para a agenda ESG no Brasil. O resultado das eleições muda as prioridades do governo, as regras e a relação entre Estado, empresas e sociedade. Mas a continuidade das políticas de sustentabilidade e igualdade racial não pode depender apenas do governo. Ela deve ser mantida pelas empresas em suas estratégias, governança e investimentos.
Um ponto importante é a relação entre governo e sociedade. Quando existem canais de diálogo com movimentos sociais, a participação nas políticas públicas aumenta. O Conselho de Participação Social da Presidência, criado em 2023, é um exemplo disso. Para grupos que sempre ficaram de fora das decisões, esses canais ajudam a cobrar e colaborar.
- A agenda ESG depende mais das empresas do que do governo.
- O diálogo entre governo e sociedade ajuda, mas não é suficiente.
- Regras de divulgação de sustentabilidade podem ser flexibilizadas, mas a responsabilidade continua.
- Para medir a igualdade racial, é preciso ter metas e indicadores claros.
- O Índice ESG de Equidade Racial (IEER) ajuda a monitorar as desigualdades nas empresas.
A participação social não deve ser um favor do governo, mas um direito democrático. O voto é importante, mas não é tudo. Uma democracia de verdade permite que diferentes grupos influenciem as decisões, especialmente os que sempre tiveram menos acesso. O desafio é transformar o diálogo em ações concretas. As empresas também precisam reconhecer a sociedade como parceira na busca por soluções para os problemas sociais e econômicos.
No ambiente das empresas, a agenda ESG não segue um caminho linear. Mudanças nas regras podem trazer avanços, mas também mostram os limites de se depender apenas de leis. A mudança nas regras de divulgação de sustentabilidade feita pela CVM em 2026 trouxe novamente o debate sobre flexibilidade e transparência. Quando a divulgação deixa de ser obrigatória, a empresa que decide publicar seus dados mostra que leva a prestação de contas a sério.
Empresas e regulação
Essa discussão vai além de cumprir regras. Dados confiáveis sobre sustentabilidade ajudam investidores a avaliar riscos e comparar empresas. Menos exigências podem dar mais liberdade, mas também geram dúvidas sobre igualdade de dados e transparência. Na minha visão, flexibilizar uma obrigação não diminui a responsabilidade das empresas. A maturidade da agenda ESG aparece na qualidade das decisões, na transparência e na capacidade de lidar com riscos e desigualdades, não apenas na existência de uma lei.
Quando falamos de igualdade racial, essa diferença fica ainda mais importante. Apenas dizer que a empresa se preocupa não basta; é preciso ter metas, indicadores e acompanhamento. É necessário saber quantos negros trabalham na empresa, quantos são líderes, quais as oportunidades de promoção, como funciona a contratação e quanto é investido na cadeia de valor. Sem essas informações, não dá para saber se a mudança é de verdade.
Medindo a equidade racial
Nesse contexto, destaco o Índice ESG de Equidade Racial (IEER), criado pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial. Ele serve para avaliar e acompanhar as desigualdades raciais nas empresas. Usando dados sobre a estrutura de cargos e comparando com a população economicamente ativa, o índice mostra desequilíbrios na presença de negros e na distribuição de salários.
Esses instrumentos são importantes porque trocam opiniões vagas por dados concretos. Quando a empresa tem parâmetros para medir as desigualdades, ela consegue ver onde estão os maiores problemas, acompanhar a evolução e saber se as ações estão dando resultado. É preciso ir além da contratação: pensar também na permanência, no crescimento profissional, na promoção e no acesso aos cargos de decisão.
Não basta contratar mais negros; é preciso entender o que ajuda ou atrapalha a carreira deles. Se a empresa contrata mas não oferece condições para crescer, resolve apenas parte do problema. Metas sem acompanhamento viram palavras que não levam a nada. A igualdade racial deve estar na estratégia da empresa, na gestão de pessoas, na governança e na forma de avaliar o trabalho.
Responsabilidade empresarial
Com a reeleição de Lula, é importante ver como o governo vai transformar suas prioridades em políticas públicas, parcerias com empresas e participação da sociedade. Mas as empresas não podem ficar esperando o governo agir. Elas devem manter seus compromissos mesmo sem pressão da opinião pública ou de leis.
Essa independência não quer dizer esquecer o Estado. Pelo contrário, boas políticas públicas, regras claras e diálogo com instituições ajudam muito. Mas a responsabilidade de reduzir as desigualdades não é só do governo. As empresas influenciam oportunidades, renda e poder, e suas ações têm impacto muito maior do que apenas dentro delas.
O que espero deste novo período é que o diálogo entre governo e sociedade melhore as políticas públicas e que as empresas façam sua parte para construir um país mais justo. Para isso, participar, ouvir e colaborar precisa vir junto com compromissos que possam ser cobrados e com a vontade de mudar atitudes que mantêm as desigualdades.
A questão principal é até onde as empresas vão manter suas políticas, mesmo quando o governo muda ou as regras mudam. É aqui que a igualdade racial se liga à permanência. Compromissos de verdade precisam aguentar mudanças no cenário, sobreviver a trocas de gestão e continuar dando resultados que podem ser medidos.
A qualidade de uma política de igualdade racial não é medida pelo que a empresa diz, mas pelo que ela muda e pela capacidade de manter essas mudanças ao longo do tempo. Num país com tantas desigualdades históricas, a permanência das ações precisa virar uma obrigação concreta das empresas, não apenas uma esperança.

Equidade (IA)


