23 de outubro de 2026

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O medo e a repulsa: como as emoções controlam seu voto

Artigos Eleição 23/10/2026 12:56 Marco Antonio Spinelli

Um artigo que explora como as emoções primitivas, especialmente o medo e a repulsa, moldam as decisões dos eleitores, e como essas forças são exploradas em campanhas políticas.

Há muito tempo, o mundo digital nos levou a escolher, nas eleições, o candidato menos pior para cargos importantes. Não votamos a favor de uma ideia, mas contra alguém que imaginamos ser o pior para o cargo. Recebemos mensagens no celular prometendo um futuro terrível se o outro ganhar. Assim, a maioria vota no candidato menos ruim: 25% votam sempre no candidato A, 25% no B, e os outros 50% seguem o discurso contra algo.

Na reta final, os candidatos agem como se não entendessem, tentam demonizar o mundo se o adversário vencer e evitam qualquer frase que aumente sua rejeição. Assim, mesmo sendo ruim em matemática, podemos prever que o próximo governante já começará com metade da população odiando sua gestão e mais 25% com horror de ter votado nele.

  • 25% dos eleitores votam cegamente no candidato A, 25% no B e 50% escolhem o candidato por causa do discurso contra o outro.
  • Candidatos usam o medo e o caos para manipular eleitores, como visto na série House of Cards.
  • O intestino, considerado nosso segundo cérebro, pode influenciar nossas decisões, incluindo as políticas.
  • O medo e a repulsa são emoções primitivas que dominam nossas escolhas nas urnas.
  • A democracia, embora imperfeita, ainda é o melhor sistema, mas está cada vez mais manca.

Tudo isso indica que nossa democracia representativa está falha. Mas como diz o ditado, a democracia é o pior sistema de governo, exceto todos os outros, então ter uma democracia manca é melhor que uma ditadura firme.

O papel das emoções primitivas

A neurociência tem destacado a conexão entre o intestino e o cérebro, chamando o intestino de segundo cérebro. Um exemplo: se pesquisadores pegam fezes de um rato obeso e transplantam para um rato magro, ele passa a comer mais e engorda. Se fizerem o contrário, o rato gordo emagrece. Isso mostra que bactérias do intestino influenciam nosso comportamento alimentar e metabolismo. Lembre disso na próxima caixa de chocolate ou cerveja: você pode estar alimentando bactérias ruins que enchem suas células de gordura. Portanto, o intestino pode controlar o cérebro e o metabolismo.

Então, o leitor pode perguntar: o que isso tem a ver com eleição Muito mais do que você pensa.

A ficção mostra a estratégia do medo

Na série House of Cards, da Netflix, o casal Frank e Claire Underwood, políticos maquiavélicos, usam o medo e o caos para vencer a reeleição. Eles cansam de tentar ganhar o coração dos eleitores e decidem mexer com o medo, criando ameaças e desestabilizando o adversário.

Confesso que, ao procurar essa cena, minha lembrança falhou, mas a ideia era: 'Estamos cansados de tentar capturar o coração dos eleitores. Vamos pegá-los pelas tripas.' A inteligência artificial diz que essa frase não existe, mas mesmo assim faz sentido. Isso porque o cérebro do intestino está ligado à preservação do território e defesa de recursos, ao medo de morrer ou passar fome. Isso explica o desespero de pensar no adversário como próximo governante.

O nojo e o medo controlam o voto

Uma sensação muito primitiva e intestinal é o nojo ou asco. Nosso mundo digital nos leva a escolhas baseadas nesse nojo. Estamos longe de ouvir outro cérebro, mais desenvolvido, mas soterrado pelo medo: o cérebro do coração. Infelizmente, ele também é dominado pelo medo. Claire Underwood tinha razão: vence quem produz mais caos e maneja melhor o medo.

A pergunta que faço é: para onde isso vai nos levar

*Marco Antonio Spinelli é médico, mestre em psiquiatria pela Universidade de São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro 'Stress, o coelho de Alice tem sempre muita pressa'