Artigo explica que as abelhas não são apenas perigosas ou produtoras de mel, mas são essenciais para a segurança alimentar e a biodiversidade, destacando os riscos reais e a necessidade de proteção.
As abelhas que tememos são as mesmas que precisamos proteger
Cynthia Lima é professora de Ciências no Ensino Fundamental do Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes, no Recife. Possui formação em Biologia (bacharel/licenciatura) e é Doutora em Oceanografia.
A diversidade esquecida das abelhas
Quando pensamos em abelhas, é natural que rapidamente associemos a espécie exótica Apis mellifera (melífera), com seu corpo geralmente marrom ou amarelado, marcado por faixas mais escuras. Ela é famosa pela produção da maior parte do mel que consumimos e pelo ferrão que inspira medo em muitas pessoas. Mas será que todas as abelhas são assim A verdade é que existem mais de 20 mil espécies de abelhas no mundo, com diferentes tamanhos, cores, hábitos e modos de vida.
- Mais de 20 mil espécies existem no mundo.
- Só 10% delas vivem em colônias organizadas.
- A maioria prefere viver de forma solitária.
- No Brasil, há muitas abelhas nativas sem ferrão.
- Elas produzem mel, mas em quantidades menores.
O papel vital da polinização
A palavra vem do nome pólen, e acontece quando os grãos são transportados da parte masculina até a parte feminina de uma flor. Ao visitar uma flor em busca de alimento, muitas abelhas acabam carregando grãos de pólen em seus corpos e os depositam em outras flores. Ao visitar flores para coletar néctar e pólen, essenciais para sua alimentação, realizam um serviço ecossistêmico fundamental. A polinização favorece a reprodução e contribui para a variabilidade genética das plantas, ajudando a manter a biodiversidade das florestas.
Segurança alimentar e qualidade do ar
A importância das abelhas também está à nossa mesa. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de três quartos dos principais tipos de culturas agrícolas do mundo dependem desses polinizadores. Isso evidencia como esses animais são extremamente importantes para a nossa segurança alimentar. Além disso, durante estas visitas, as abelhas são impregnadas por microrganismos e substâncias químicas presentes na atmosfera, nos oferecendo outra função extremamente importante: indicador da qualidade do ar.
Por que enxames atacam
Se algo resulta na diminuição da polinização, há alterações em toda a cadeia de relações ecológicas. Mas apesar da enorme importância desses insetos; o desmatamento, mudanças climáticas, o uso inadequado de pesticidas e a expansão de monoculturas estão entre os fatores associados ao declínio de diversas populações.
- Desmatamento reduz o habitat.
- Mudanças climáticas afetam os ciclos.
- Pesticidas matam as abelhas.
- Monoculturas limitam o alimento.
- Acidentes urbanos geram medo.
Ultimamente, as abelhas têm aparecido nas notícias como grandes vilãs: com acidentes envolvendo enxames em áreas urbanas. Esses episódios podem causar ferimentos e, em algumas ocasiões, levar ao óbito, principalmente quando se trata de pessoas alérgicas ao veneno. A preocupação com a segurança das pessoas é legítima e exige atenção das autoridades, especialmente se há colônias próximas a residências, escolas e locais de grande circulação. No Brasil, a espécie que tem sido relacionada à maioria dos acidentes, é a Apis mellifera. Elas apresentam um comportamento defensivo quando se sentem ameaçadas. Ao atacar, liberam um feromônio que resulta no ataque de outras contra um mesmo alvo. É importante compreender que esses animais estão apenas respondendo a estímulos que interpretam como ameaça. Os ataques costumam ser mais frequentes durante o verão, devido a reprodução e migração que se intensificam neste período. Por isso, a orientação é acionar o corpo de bombeiros e manter distância do local onde o enxame/colmeia tenha sido visto. Em caso de ataque, a orientação é correr o mais rápido possível, para se afastar da colmeia. Uma curiosidade é que as abelhas são sensíveis a odores fortes e barulho, podendo ficar mais agressivas. Além disso, algumas abelhas morrem depois de picar uma pessoa. Na melífera o ferrão possui pequenas estruturas que podem ficar presas na pele humana. Ao se afastar, a abelha pode sofrer uma lesão fatal, perdendo parte do aparelho digestivo. Mas isso não acontece com todas as abelhas, e nem todas as espécies que possuem ferrão morrem depois de utilizá-lo.
Como podemos ajudar
O maior desafio dos pesquisadores na área, é fazer com que as pessoas compreendam que as abelhas não se resumem à produção de mel ou ao risco de ataque. Esses animais desempenham um papel fundamental na manutenção da biodiversidade e contribuem diretamente para a nossa segurança alimentar. Protegê-las significa promover uma convivência mais consciente com a natureza, reconhecendo tanto sua importância ecológica quanto a necessidade de prevenir acidentes. Afinal, cuidar das abelhas é também cuidar das florestas e dos alimentos que consumimos. E essa responsabilidade não cabe apenas às autoridades. Cada um de nós pode contribuir, por exemplo, cultivando plantas nativas que lhes ofereçam alimento. Para quem deseja conhecer melhor a diversidade das abelhas sem ferrão brasileiras, o site Abelha Atlas da Meliponicultura no Brasil disponibiliza um mapa interativo com informações sobre as espécies com potencial para a criação em cada estado. Conhecer é o primeiro passo para conservar.

Cynthia Lima, professora de Ciências no Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes


