Felipe Afonso, autor de 'Nuances da Exclusão', critica a falsidade da inclusão no Brasil, apontando que embora haja leis de cotas, faltam adapt reais para que pessoas com deficiência estudem, trabalhem em cargos de liderança e tenham acesso à saúde de qualidade.
A sociedade brasileira tem um entendimento muito superficial sobre as dificuldades reais enfrentadas por pessoas com deficiência. Como não compreende a profundidade desses problemas, aceita facilmente qualquer iniciativa como um sinal de inclusão. Essa falta de conhecimento é, em muitos casos, conveniente, pois permite que o governo e as empresas mantenham uma imagem de acolhimento sem, de fato, resolver as barreiras estruturais. No entanto, basta olhar para a rotina dessas pessoas para perceber que o discurso oficial não responde às perguntas mais urgentes.
Barreiras no mercado de trabalho
Existe uma Lei de Cotas que obriga a contratação de pessoas com deficiência, mas a prática mostra que elas raramente chegam a cargos de liderança ou altos salários. Parece normal, para a sociedade, que essas pessoas sejam contratadas apenas para funções mal remuneradas, sem perspectiva de crescimento, como se a deficiência fosse um teto intransponível. Aceitar essa realidade como se pessoas com deficiência fossem naturalmente menos capazes é uma falha grave da inclusão.
O que a propaganda esconde
Antes de celebrar números de contratação e exibir campanhas publicitárias bonitas, é necessário mostrar o que acontece fora dos holofotes:
- Crianças com deficiência têm matrículas recusadas em escolas, mesmo quando a família se oferece para ajudar.
- Alunos que conseguem entrar são expulsos depois, pois as escolas não querem ou não sabem se adaptar.
- Estudantes surdos passam em universidades federais, mas abandonam os cursos porque não há intérpretes de Libras.
- Pessoas que perdem a audição precisam escolher entre esperar anos por um aparelho auditivo pelo SUS ou pagar valores que não cabem no orçamento.
E as pessoas com deficiência que vivem abandonadas em instituições precárias Os números alarmantes de suicídio entre esse grupo de população aparecem nas campanhas sobre inclusão A resposta é não. Enquanto a sociedade foca nas vitórias midiáticas, o drama humano continua no silêncio.
A falta de condições básicas
O problema não é apenas a quantidade de vagas reservadas nas empresas. O cerne da questão é a falta do mínimo necessário para que essas pessoas consigam cuidar da saúde, estudar, se qualificar e desenvolver autonomia. Sem essas condições, é impossível ter chances reais de alcançar objetivos de vida, ficando dependentes exclusivamente de uma vaga reservada que, muitas vezes, não é um mérito, mas uma caridade mal executada.
Mérito desigual e o tempo perdido
Como uma pessoa pode disputar uma oportunidade justa se passou a vida inteira sem acesso ao que precisava para chegar até ela Como cobrar qualificação de quem foi deixado para trás desde o início da educação Falar em mérito ignorando essa diferença histórica é uma contradição. Enquanto a sociedade continua fingindo que está tudo sob controle, os problemas são empurrados para depois. Só que a vida das pessoas com deficiência está acontecendo agora. O tempo gasto sustentando uma aparência de inclusão é, na verdade, o tempo que essas pessoas têm para viver.
*Autor de "Nuances do Silêncio" e "Nuances da Exclusão", Felipe Afonso utiliza a literatura como recurso para narrar suas experiências como uma pessoa com deficiência auditiva.

Divulgação / Felipe Afonso


