O artista plástico e escritor Sandoval Tibúrcio reflete sobre como as imagens e as palavras se complementam para dar forma à nossa memória e às experiências vividas, revelando a união entre duas linguagens artísticas.
Uma pintura pode contar uma história com a mesma intensidade e profundidade de um livro. O escritor e artista plástico Sandoval Tibúrcio analisa essa conexão no artigo abaixo, refletindo sobre os diálogos entre a palavra e a imagem.
A partir de sua trajetória de quarenta anos pintando casas nas artes visuais, ele mostra no texto como diferentes linguagens podem expressar ideias, sentimentos e experiências humanas de formas únicas e complementares.
- Com trabalhos já apresentados em Paris e Dubai, Sandoval estará no Rio de Janeiro, de 22 a 28 de setembro, em uma exposição promovida pelo Recanto das Artes, onde duas de suas obras serão leiloadas.
- Sandoval Tibúrcio é autor do romance histórico Magnitude, que retrata os costumes da sociedade carioca nas décadas de 1950 e 1960.
- O artista visual acredita que pintura e literatura não competem, mas nascem da mesma experiência humana, embora encontrem caminhos diferentes para se expressar.
- A memória não é um arquivo fixo; ela muda conosco ao longo do tempo, podendo ser transformada em texto ou em imagem de maneiras distintas.
- A exposição no Rio de Janeiro é uma oportunidade de ver de perto obras que exploram temas como pertencimento, ausência e a reconstrução da identidade.
Na pintura, muitas vezes chego a uma ideia antes de encontrar palavras para ela. A matéria, a cor, uma superfície desgastada ou uma imagem repetida conseguem dizer algo que eu ainda não saberia escrever. A literatura faz o movimento contrário. Ela me obriga a permanecer mais tempo dentro de uma experiência, dar voz a um conflito, acompanhar um personagem, perceber detalhes que talvez uma imagem deixasse em silêncio.
Quando escrevo, também vejo. Imagino espaços, movimentos, luz, rostos. Quando trabalho visualmente, frequentemente existe uma história acontecendo, mesmo que ela jamais seja contada por inteiro. Não vejo nisso uma mistura de linguagens, mas duas possibilidades de aproximação da mesma experiência.
A Memória e a Transformação da Arte
Minha relação com a memória talvez seja um bom exemplo. Não acredito na memória como arquivo intacto. O acontecimento pode permanecer o mesmo, mas nós mudamos, e aquilo que lembramos passa a ocupar outros lugares dentro de nós. Posso transformar uma lembrança em texto e descobrir nela uma coisa. Posso levá-la para uma obra e encontrar outra. Nenhuma das duas precisa ser a versão definitiva.
Durante muito tempo fomos ensinados a organizar a criação em territórios muito definidos: pintura de um lado, literatura de outro. Essas divisões são úteis para compreender técnicas e histórias, mas a experiência humana não acontece dessa maneira. Uma perda não chega até nós como literatura. Um desejo não nasce pintura. Uma lembrança não escolhe previamente a linguagem em que será transformada.
O Encontro Entre Imagem e Palavra
Talvez criar seja justamente encontrar uma forma possível para aquilo que ainda não tem forma. Por isso, não penso que seja necessário escolher entre imagem e palavra. Algumas experiências pedem matéria; outras, narrativa. E existem aquelas que voltam muitas vezes, mudando de linguagem porque nós também já não somos os mesmos.
Continuo pintando casas. Continuo escrevendo histórias. Hoje entendo melhor que, apesar das ferramentas diferentes, procuro nas duas coisas algo muito parecido: dar forma ao que vivi, ao que observei e ao que ainda tento compreender.

Obra de Arte de Sandoval Tibúrcio







