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Dor também é desigualdade: entenda por que alguns grupos sentem mais dor

Artigos Dor 04/09/2026 08:42 Mariana Schamas

A dor crônica não é apenas uma questão física: fatores sociais como racismo, discriminação e exclusão aumentam a prevalência e dificultam o tratamento. Especialista explica como grupos vulneráveis sofrem mais e o que fazer para combater essa desigualdade.

A dor não escolhe idade, gênero, raça ou condição social. Mas a forma como ela é vivida, interpretada e tratada está longe de ser igual. A ciência já demonstra que minorias sociais apresentam maior prevalência de dor crônica, maior carga de sofrimento e menor acesso ao tratamento adequado. Racismo estrutural, sexismo, discriminação e exclusão social não apenas adoecem: também influenciam a forma como sentimos e tratamos a dor.

Uma revisão sistemática brasileira publicada em 2012 no Brazilian Journal of Pain mostrou que a prevalência de dor crônica no Brasil varia entre 23% e 76%, com média de 45,6%, sendo mais frequente entre mulheres. Essa diferença não pode ser explicada apenas pela biologia. Ao longo da vida, muitas mulheres acumulam experiências dolorosas físicas e emocionais, convivem com sobrecarga de trabalho, desigualdade de gênero, violência e, frequentemente, ainda têm suas queixas minimizadas ou atribuídas apenas a fatores emocionais.

  • Cerca de 45% dos brasileiros sofrem de dor crônica, com maior incidência entre mulheres.
  • Pessoas negras recebem menos analgésicos e têm seus relatos de dor subestimados.
  • LGBTQIAPN+ têm prevalência de dor crônica maior que heterossexuais.
  • Discriminação e estresse prolongado aumentam a sensibilidade à dor.
  • O tratamento deve considerar fatores biológicos, psicológicos e sociais.

Discriminação e dor: uma relação comprovada

A situação é ainda mais preocupante para pessoas negras. Estudos internacionais mostram que elas recebem menos analgésicos, aguardam mais tempo por atendimento e têm seus relatos de dor subestimados em comparação com pessoas brancas. A população LGBTQIAPN+ também apresenta maior prevalência de dor crônica. Um estudo publicado na revista PAIN® encontrou prevalência de 17,2% entre heterossexuais, 21,7% entre gays e lésbicas, 23,7% entre bissexuais e 27% entre pessoas que se identificaram como "outra identidade sexual". O sofrimento psicológico foi o fator mais fortemente associado a essas diferenças.

Hoje sabemos que a dor não depende apenas da presença de uma lesão. Experiências persistentes de discriminação, violência, preconceito e insegurança mantêm o organismo em estado prolongado de estresse, produzindo alterações neurobiológicas que aumentam a sensibilidade à dor e favorecem sua cronificação.

O modelo biopsicossocial da dor

É por isso que o modelo biopsicossocial da dor se tornou referência mundial. Além dos fatores biológicos, ele considera os aspectos psicológicos e sociais que moldam a experiência dolorosa. Compreender a história de vida, o contexto social e as barreiras enfrentadas por cada pessoa é parte do tratamento.

A dor também revela desigualdades. Cuidar dela exige mais do que exames e medicamentos: exige escuta, respeito, equidade e compromisso com a dignidade humana. Se a dor é uma experiência biopsicossocial, seu tratamento também precisa ser. Combater a desigualdade é, também, uma forma de aliviar a dor.