Especialista em saúde mental alerta que a pressão constante para se manter relevante no mercado após os 40 anos está levando a um aumento recorde de afastamentos por burnout no Brasil.
O Setembro Amarelo vai além do suicídio e traz outro tema silencioso: a sensação constante de que, depois dos 40 anos, você precisa provar que ainda merece seu lugar no mercado de trabalho. Isso não é uma crise passageira, é um estado de alerta permanente que a maturidade deveria ter eliminado, mas não eliminou. Esse desconforto raramente é a queixa principal no consultório médico; ele aparece como insônia, irritabilidade ou um cansaço que os exames não explicam.
Os números são assustadores: no Brasil, os afastamentos por burnout saltaram 823% entre 2021 e 2025, segundo o Ministério da Previdência Social. Foram mais de 530 mil licenças por transtornos mentais só no último ano, com um prejuízo estimado em quase R$ 400 bilhões por ano em produtividade, faltas e rotatividade. Além disso, 41% dos profissionais brasileiros já sofreram discriminação por idade no trabalho, conforme o estudo Talent Trends. É a geração que mais entrega e a que mais precisa se justificar e os dois números crescem juntos, não por acaso. Outro dado importante: quem tem mais de 45 anos leva quase o dobro do tempo para se recolocar após uma demissão, o que transforma qualquer erro em uma ameaça existencial.
- O burnout é um esgotamento físico e mental causado pelo trabalho excessivo.
- Profissionais acima de 45 anos enfrentam mais dificuldade para conseguir novo emprego.
- A discriminação por idade no trabalho atinge 4 em cada 10 brasileiros.
- O custo do burnout para as empresas chega a R$ 400 bilhões por ano.
- O descanso é essencial, mas muitos profissionais maduros sentem culpa ao parar.
Essa cobrança tem duas origens: a interna e a externa. A interna vem das próprias décadas de carreira, que ensinaram a associar valor à produtividade e à presença. Quando o corpo pede uma pausa, a primeira reação é culpa ou medo, não cuidado. Na prática clínica, é comum ouvir a frase: não posso parar agora, ainda mais na minha idade, como se o descanso precisasse ser conquistado a cada ciclo.
A segunda origem é externa e ficou mais forte com a chegada da geração Z, acostumada à resposta imediata da tecnologia. Uma pesquisa mostra que 70% dessa geração espera ser promovida em até 18 meses de trabalho. A expectativa contamina o ambiente e cria duas velocidades: uma exige resultados rápidos, a outra sabe que reputação se constrói devagar. Essa segunda acaba sendo vista como lentidão.
O cérebro não distingue prazo apertado de ameaça real e reage em alerta contínuo, drenando a clareza que a experiência deveria dar. Isso tem nome: carga alostática o desgaste de manter o estresse ativado por muito tempo sem perigo real. O paradoxo é: quanto mais o profissional sênior tenta acompanhar o ritmo artificial, menos consegue usar o discernimento que só o tempo traz. É como correr uma maratona no ritmo de 100 metros: o corpo responde por um tempo, mas a conta chega inteira.
As empresas também têm responsabilidade. Tratar a exaustão apenas como estatística de RH, e não como risco estratégico, faz com que percam talentos maduros e tomem decisões piores sob fadiga crônica. Programas de bem-estar que ignoram a questão etária tratam só o sintoma: oferecem meditação para quem precisa de metas realistas e reconhecimento que não dependa de prova constante.
O que chamamos de falta de resiliência é, na verdade, sobrecarga biológica acumulada por anos, disfarçada de caráter. O verdadeiro risco do Setembro Amarelo não está só no extremo, mas em normalizar o esgotamento como preço obrigatório da relevância. Cuidar da saúde mental depois dos 40 não é fragilidade; é o que permite que a experiência continue sendo o maior ativo dessa geração e não o seu ponto mais vulnerável.

Imagem divulgação - Anelise Pirola


