17 de agosto de 2026

??ºC Tempo São Paulo - SP São Paulo - SP
??ºC Tempo Rio de Janeiro - RJ Rio de Janeiro - RJ
??ºC Tempo Salvador - BA Salvador - BA

Empresas enfrentam crise de decisão, não de mercado

Artigos Crise 17/08/2026 16:29 Pedro Fenati Bicalho - FC Partners

O artigo analisa como grandes empresas, como a Editora Abril, quebram não por causa da crise de mercado, mas por não tomarem decisões rápidas para se adaptar às mudanças, especialmente com a chegada da inteligência artificial.

O caso da Editora Abril foi visto por muitos como consequência da crise da mídia impressa, mas eu discordo.

Se você analisar com cuidado, percebe que a crise da Abril não foi sobre o avanço do digital ou a perda de importância do papel, mas sim sobre a dificuldade de se adaptar rapidamente às mudanças.

  • A Editora Abril quebrou por não mudar seu modelo de negócio a tempo.
  • A inteligência artificial vai forçar empresas de todos os setores a se reinventar.
  • Empresas que não se adaptam perdem valor rapidamente.
  • Blockbuster e Saraiva são exemplos de atraso.
  • Plano de sucessão é essencial para empresas familiares.

Em 2018, a Editora Abril entrou em recuperação judicial com uma dívida de mais de R$ 1,6 bilhão, um exemplo clássico de empresas tradicionais de mídia que sofreram.

Transformação digital e mudanças rápidas

Hoje, vemos que a transformação digital já mudou muitos mercados. Com a inteligência artificial, essa mudança vai ser ainda mais rápida, e as empresas precisam estar sempre prontas para se reinventar.

As grandes empresas não são mais tão estáveis. Um estudo da Innosight mostra que o tempo médio que uma empresa fica no índice S&P 500 caiu de 61 anos em 1958 para menos de 20 anos hoje. A consultoria prevê que metade das empresas atuais do índice desaparecerá nos próximos 10 anos.

No setor de mídia, o impacto foi grande e sem volta. Quando a Abril criou seu império, as revistas e jornais eram a principal forma de as empresas anunciarem. Hoje, isso mudou. A WPP Media prevê que o mercado mundial de publicidade vai passar de US$ 1 trilhão em 2026, mas quase 70% desse valor vai para o digital. A publicidade online deve movimentar US$ 680 bilhões este ano, com Meta, Google e Amazon ficando com mais de 60% desse dinheiro.

O erro da Abril

A Abril viu a mudança acontecer, mas agiu tarde. Para mim, o problema não foi só a queda de receita, mas a forma como o dinheiro foi usado. Em momentos difíceis, empresas grandes costumam proteger seus negócios antigos, mesmo quando eles já estão mostrando problemas.

No caso Abril, isso aconteceu quando eles venderam ativos valiosos, como a área de educação, para tentar manter o negócio principal que estava caindo. Financeiramente, isso significa abrir mão de crescer para sobreviver. Quando uma empresa não mostra capacidade de se adaptar, o valor dela cai muito antes de os resultados realmente piorarem.

Esse padrão se repete em outros casos. A Blockbuster ignorou o streaming, a Saraiva não acompanhou o e-commerce. Os dois perderam valor rápido e não conseguiram reagir.

Empresas maduras podem parecer baratas, mas viram armadilhas quando não conseguem mais inovar e crescer. Nesse momento, o mercado perde a confiança e o valor da empresa continua caindo.

Eu sempre digo: essas não são crises de mercado, são crises de decisão. O mercado muda para todos, mas quem reage rápido vence. Tempo é dinheiro.

Os processos de sucessão e o poder concentrado só pioram o problema. Empresas que dependem muito do fundador têm mais dificuldade de mudar. A confiança no modelo antigo pode virar um risco quando o mundo muda.

No Brasil, cerca de 90% das empresas são familiares. A sucessão é um dos maiores riscos. Dados da PwC mostram que só 24% das famílias têm um plano de sucessão. Apenas 36% das empresas chegam à segunda geração, e só 12% chegam à terceira.

Falhas comuns e sucessão

Uma das maiores falhas das empresas é não perceber que uma mudança deixou de ser tendência e virou realidade. Atraso nisso derruba o valor da empresa. O mercado não pune por um trimestre ruim, mas pune se acreditar que a empresa não consegue mais crescer ou inovar. Quando isso acontece, os investidores cobram um desconto bem alto.

A perda de valor não acontece de uma vez. Ela é gradual e silenciosa. Primeiro a empresa perde margem, depois relevância. Quando vê, já perdeu a capacidade de investir na própria transformação.

Isso fica pior com o que chamamos de 'arrogância silenciosa': a confiança exagerada em um modelo que funcionou por décadas, mesmo com provas de que o mercado mudou.

O caso Abril mostra um padrão que se repete em vários setores: empresas pressionadas por novas tecnologias, com estruturas antigas e dificuldade de mudar de prioridade.

A diferença está na velocidade de resposta. Hoje não dá para prever o futuro com precisão. É preciso perceber rápido que o presente já mudou e ter coragem, capital e governança para agir.