A professora Midian Rebeca Justino de Araújo reflete sobre o impacto da hiperatenção e da cultura digital na formação de leitores, destacando a importância da leitura profunda e do papel da família e da escola nesse processo.
Há uma cena familiar: um vídeo termina e outro começa. Para muitos adolescentes, transitar entre conteúdos tornou-se cotidiano. Mas o que acontece quando, em vez de deslizar a tela, é preciso permanecer algumas páginas diante da mesma história
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 revelou que 53% dos brasileiros não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores. O dado não fala apenas dos jovens, e talvez isso já nos diga algo. Antes de responsabilizar uma geração inteira, convém reconhecer que o afastamento dos livros é um fenômeno mais amplo.
- 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro em três meses, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024.
- O filósofo Byung-Chul Han diferencia a atenção profunda da 'hiperatenção', comum na era digital.
- Quintiliano, pensador romano, já associava a leitura de bons autores à formação do pensamento e da expressão.
- Mortimer Adler, em 'Como Ler Livros', defende que o leitor deve ser ativo, fazendo perguntas ao texto.
- A família e a escola podem atuar juntas para promover encontros significativos com os livros.
A leitura possui um tempo próprio. Um romance pede imaginação e disposição para não compreender tudo imediatamente. A reflexão de Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço, ajuda a pensar esse contraste ao opor a atenção profunda à 'hiperatenção', marcada pela rápida mudança de foco. E essa inquietação não é inteiramente nova: já em Quintiliano, a leitura dos bons autores estava ligada à formação de quem deveria aprender a pensar e a expressar-se bem.
Mortimer Adler, em Como ler livros, segue por caminho semelhante. Para ele, o leitor não permanece passivo diante de uma obra: faz perguntas ao texto e constrói seu julgamento. Pensemos, então: formar leitores não seria também ajudá-los a descobrir que um livro oferece uma experiência diferente daquela proporcionada pelo conteúdo breve
Isso não transforma a tecnologia em adversária. Um vídeo sobre Machado de Assis pode despertar curiosidade por Dom Casmurro. Pode ser o primeiro encontro, a porta que se abre. O que vem depois dela, porém, exige outro tempo.
Nesse caminho, família e escola podem caminhar juntas, aproximando-se do universo dos adolescentes e favorecendo encontros significativos com os livros, para que a leitura também seja descoberta e sentida.
Talvez formar leitores na chamada 'geração TikTok' seja menos uma batalha contra as telas e mais um convite à descoberta de outro ritmo. Afinal, ler é também atribuir sentidos, reconhecer-se e encontrar-se nas palavras do outro. E talvez seja nesse encontro que um livro deixe de ser apenas algo que se lê e encontre morada no leitor, um lugar de permanência na memória, no imaginário e na maneira como ele passa a interpretar a si mesmo e o mundo.

Midian Rebeca Justino de Araújo



