Professores brasileiros enfrentam um paradoxo: sua autoridade é reduzida, mas acumulam cada vez mais tarefas. Violência, desvalorização e falta de apoio agravam a situação. Este artigo discute o problema e pede mais respeito e melhores condições para a categoria.
Neste mês de julho de 2026, estreia o novo filme do Homem-Aranha, o herói que aprendeu, da pior maneira possível, que, com grandes poderes, vêm muitas responsabilidades. No Brasil, paradoxalmente, os professores são tratados como heróis ao contrário: seus poderes foram totalmente eliminados, mas deles se exigem responsabilidades cada vez maiores e impossíveis de alcançar. O resultado é que, todos os dias, esses profissionais são lançados em ambientes degradados e violentos, com as mãos e os pés amarrados, sem apoio real, enquanto os verdadeiros vilões assistem a esse sofrimento de camarote.
- Professores têm menos autoridade e mais tarefas a cada dia.
- Violência e indisciplina tomam conta das escolas, consumindo 21% do tempo de aula.
- Muitos municípios não pagam o piso salarial dos professores.
- Mais da metade dos professores das escolas públicas são temporários, com menos direitos.
- Escolas não têm psicólogos suficientes para ajudar os alunos.
Quanto aos malfeitores, basta ver que, nas últimas décadas, os professores foram atacados de ambos os lados ideológicos, interessados em controlar as escolas e dominar as mentes das novas gerações, em vez de garantir alfabetização de qualidade, leitura e conhecimento. De um lado, criou-se o mito do professor opressor e da escola-prisão, demonizando a autoridade do professor; de outro, buscou-se rotular os mestres como doutrinadores, preguiçosos ou corruptores da juventude, manchando a imagem da categoria e enfraquecendo o vínculo entre família e escola.
Assim, a autoridade do professor, que é fundamental para o ensino, foi esvaziada. Até mesmo estudiosos de áreas opostas, como Paulo Freire e Inger Enkvist, concordam que sem autoridade do professor em sala de aula é impossível ter bons resultados.
Hoje, a liberdade de ensinar quase não existe na educação básica. Os professores, enfraquecidos, não podem ensinar livremente em muitas redes, pois são obrigados a seguir plataformas e materiais prontos. Também não podem avaliar os alunos como deveriam, pois os resultados são mudados sem que eles possam opinar, e os estudantes são aprovados muitas vezes sem critério de aprendizagem. Além disso, o desrespeito e a violência tomaram conta das escolas, inclusive de muitas particulares, pois os pais desautorizam os professores e as escolas não conseguem combater a indisciplina. Segundo a OCDE, a indisciplina já ocupa 21% do tempo de aula.
Apesar de tudo isso, o professor recebe cada vez mais tarefas. Por exemplo, a Lei nº 13.185/2015 obriga as escolas a combater a violência e o bullying. Em 2018, a Lei Lucas determinou que os professores devem ser capacitados em primeiros socorros. Em março, novas regras do ECA obrigaram as escolas a promover educação digital e garantir um ambiente virtual seguro. Em junho, foi aprovado um projeto de lei que torna obrigatório ensinar educação política e direitos da cidadania.
Essas ideias são importantes, mas chama a atenção que a sociedade está transferindo cada vez mais responsabilidades para uma escola pobre e para professores doentes e sobrecarregados. Enquanto isso, 33% dos municípios não cumprem a lei do piso salarial dos professores, mais de 50% dos professores das escolas públicas são temporários, com menos direitos, e apenas 15,7% das escolas públicas têm psicólogos. A Lei Lucas também não é cumprida por muitos estados e municípios.
Professores não são heróis, mas profissionais que merecem respeito. Não se pode esperar que eles tenham poderes sobre-humanos enquanto políticos, gestores e muitos pais se eximem de suas responsabilidades. É preciso dar condições dignas de vida e trabalho, devolver a autoridade aos professores e valorizar o conhecimento escolar, que é a base de todas as habilidades. Caso contrário, a profissão continuará inviável, presa a uma teia de abandono e impotência, condenando o país a ficar para trás.

Divulgação | Arquivo pessoal (Ajustada por IA)


