Ser pai nunca foi fácil, mas hoje é ainda mais desafiador. Entre o trabalho, o celular e a correria do dia a dia, muitos pais acabam confundindo dar dinheiro com estar presente. O pediatra e psicanalista Fausto Flor Carvalho explica que o verdadeiro papel do pai é estar por perto, dar limites e ensinar valores que ficam para a vida toda. Uma reflexão importante para o Dia dos Pais.
Ser pai nunca foi simples, mas talvez nunca tenha sido tão desafiador quanto agora. Vivemos um tempo inédito, com até cinco gerações convivendo ao mesmo tempo, separadas por uma tecnologia que aproxima quem está distante e afasta quem está por perto. Em mais de vinte anos de consultório, vejo crianças e adolescentes cada vez mais isolados, sozinhos, muitas vezes tristes, e pais que, com toda a boa vontade, admitem não saber por onde começar.
- A tecnologia afasta quem está perto: muitos pais estão no mesmo sofá que os filhos, mas com os olhos no celular, criando um 'abandono virtual'.
- Dar conforto não é o mesmo que estar presente: nenhum sucesso fora de casa compensa a ausência dentro dela.
- Ensinar a lidar com a frustração é uma das maiores heranças que um pai pode deixar, muito além de bens materiais.
- Nunca é tarde para mudar: reconhecer um erro é o primeiro passo para reconstruir vínculos com os filhos.
- Não existe pai perfeito, existe o pai possível: que erra, aprende e recomeça, trocando a culpa pela presença.
O maior engano da paternidade moderna é confundir provisão com presença. Muitos homens se dedicam intensamente ao trabalho acreditando que, ao garantir conforto e oportunidades, estão cumprindo seu papel. Mas nenhum sucesso fora de casa compensa a ausência dentro dela. E não falo apenas do pai que viaja ou trabalha demais, falo do pai que está no mesmo sofá que o filho, com os olhos presos na tela do celular. Podemos chamar esse fenômeno de abandono virtual, e ele talvez seja a forma mais comum de negligência dos nossos dias.
A importância da presença verdadeira
Ser pai hoje é, antes de tudo, estar presente de verdade. É olhar nos olhos, ter tempo sem pressa, conhecer os medos e os sonhos de cada filho. É abençoar com palavras, dizer em voz alta o que admiramos neles, e não apenas apontar o que precisam corrigir. É posicionar-se, impor limites com afeto, entender que a neutralidade, tão útil em outras áreas da vida, na criação dos filhos costuma ser apenas outro nome para omissão.
É também preparar, e não apenas proteger. Num mundo de satisfação imediata, uma das maiores heranças que um pai pode deixar é ensinar o filho a lidar com a frustração, a esperar, a ouvir um 'não'. Quem não aprende isso em casa sofre com ele lá fora. E isso não se faz sozinho: criar bem é tarefa de parceria, com a mãe e toda a rede de afeto ao redor da criança.
O legado que fica para os filhos
Ser pai também é pensar no que deixamos. Não na herança, os bens que se gastam e se dividem, mas no legado: o caráter, os valores e os exemplos que permanecem em quem nossos filhos se tornam. O maior patrimônio de um filho é a pessoa que ele será.
E há uma verdade que gostaria que todo pai entendesse: nunca é tarde para mudar. A forma de criar pode ser revista, ajustada e reaprendida em qualquer fase da vida. Reconhecer um erro não é fraqueza, é o primeiro passo para reconstruir vínculos.
Não existe pai perfeito, e essa cobrança só nos paralisa. Existe o pai possível, aquele que erra, aprende e recomeça. Neste Dia dos Pais, mais do que uma homenagem, fica um convite: troque a culpa pela presença. Seus filhos não precisam de um pai impecável. Precisam de um pai por perto.

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