O escritor Fernando Cunha questiona se as pessoas realmente têm controle sobre suas escolhas. Ele explica que fatores como traumas, redes sociais e até genética influenciam as decisões, e que a verdadeira liberdade pode estar em aceitar nossas limitações.
Parece mais confortável acreditar que temos livre-arbítrio, ou seja, que somos capazes de fazer escolhas conscientes. Afinal, cada pessoa tem necessidades e desejos próprios, que nem sempre são iguais aos dos outros. Coisas básicas, como fome e vontade de socializar, costumam ser parecidas entre as pessoas. Já gostos pessoais, como preferências por comida ou estilo, são mais variados. Mas apenas observar o que motiva as pessoas não é suficiente para saber se elas realmente têm controle sobre suas decisões.
Livre-arbítrio significa a capacidade de escolher conscientemente entre várias opções. O maior problema é definir o que é uma escolha consciente. Para isso, seria preciso ter informações completas sobre todas as alternativas e um entendimento total delas, o que é quase impossível para os seres humanos. Por outro lado, dá para defender um livre-arbítrio incompleto: aquele que permite algum nível de avaliação, mas é muito influenciado por experiências passadas e pela memória genética de cada um.
- O livre-arbítrio completo seria escolher sem influência de traumas, publicidade ou emoções.
- As redes sociais e os algoritmos influenciam muitas decisões, como começar um relacionamento ou ir a um restaurante.
- A meditação pode ajudar a observar a realidade com menos interferência das experiências pessoais.
- Monges budistas questionam até mesmo a existência de um "eu" que decide.
- A verdadeira liberdade pode estar em escolher sabendo das nossas limitações, e não em provar que temos controle total.
O que realmente influencia nossas escolhas
O livre-arbítrio pleno significaria, por exemplo, ser capaz de decidir sem qualquer influência de traumas de infância. Além disso, seria possível escolher genuinamente, usando apenas a própria lógica, sem estímulos sociais, publicitários ou emocionais. A ideia de um livre-arbítrio incompleto aceita melhor as emoções humanas, especialmente numa época em que os algoritmos dividem com os hormônios o controle das nossas ações. Decisões como começar um namoro ou visitar um novo restaurante são muito influenciadas por posts em redes sociais que aumentam a liberação de dopamina.
Redes sociais e a pressão da vida moderna
Para uma geração que se sente pressionada pelos sonhos de prosperidade, relacionamentos saudáveis e tempo de qualidade, o entretenimento das redes sociais pode anestesiar essa dor. Ao mesmo tempo que anestesiam, elas criam novas experiências que geram novas decisões. No entanto, isso não é novidade da era digital, é apenas uma prova moderna de como é difícil mostrar que as pessoas são realmente livres para pensar e decidir sobre qualquer coisa. Uma forma de observar a realidade com menos interferência das próprias experiências é pela prática da meditação.
O que a meditação pode nos ensinar
Meditadores experientes, como monges budistas, têm experiências intrigantes sobre como os fenômenos são voláteis e interdependentes. Eles não apenas questionam seus próprios desejos, mas também a existência de um "eu" que decide. Dessa forma, dizem conseguir diminuir o sofrimento nesta vida. Talvez, a conclusão mais importante não seja provar se o livre-arbítrio existe ou não. Mas entender que um dos motivos que fazem o ser humano sofrer é a necessidade de defender sua própria capacidade de decidir. Talvez a verdadeira liberdade não esteja em provar a própria liberdade de escolha, mas em escolher sabendo das próprias limitações.

Divulgação / Fernando Cunha


