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Fibromialgia e mulheres: entenda a dor que não aparece em exames

Artigos Saúde 17/05/2026 15:31 Rosana Leite Antunes de Barros folhamax.com

A fibromialgia é uma doença que causa dores pelo corpo, cansa, cansaço extremo e problemas de sono. Ela atinge principalmente mulheres, muitas vezes ligada a históricos de violência. A medicina ainda tem preconceito e dificuldade para diagnosticar, fazendo com que as pacientes sofram em silêncio.

O dia 12 de maio foi nomeado como o Dia Mundial de Conscientização da Fibromialgia e de algumas outras doenças crônicas e imunológicas. A data foi escolhida em homenagem a Florence Nightingale, que nasceu no dia em 1820, e foi fundadora da enfermagem moderna. Ela passou parte da vida adulta doente, com sintomas semelhantes aos da fibromialgia e encefalomielite miálgica.

A fibromialgia permanece cercada por incompreensões médicas, sociais e jurídicas. Durante muito tempo, mulheres diagnosticadas foram tratadas como pessoas emocionalmente frágeis, exageradas ou incapazes de suportar os desafios ordinários da vida. Entretanto, a ciência contemporânea vem demonstrando que a dor tem memória, e o corpo registra aquilo que a violência tenta esconder.

  • O que é: Fibromialgia causa dores pelo corpo todo, cansaço e problemas de sono, sem aparecer em exames comuns.
  • Quem atinge: Mais de 90% dos casos são em mulheres e muitas têm histórico de violência doméstica ou abuso.
  • Preconceito: Muitas mulheres são chamadas de exageradas ou frágeis por médicos e pela sociedade.
  • Dor invisível: A violência psicológica não deixa marcas na pele, mas destrói o sistema nervoso e a saúde.
  • Diagnóstico difícil: Como não há exame que mostre a dor, mulheres passam anos sem receber o diagnóstico correto.

Essa é uma enfermidade complexa, marcada por dores difusas, fadiga crônica, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e hipersensibilidade física e emocional. Embora possa atingir qualquer pessoa, a esmagadora maioria são mulheres. Muitas delas possuem histórico de violência doméstica, abuso psicológico, agressões físicas, violência sexual ou relações afetivas marcadas pelo medo e pela humilhação cotidiana.

A violência que não se vê, mas se sente

A sociedade ainda insiste em enxergar a violência doméstica apenas pelos hematomas visíveis e pelo olho roxo. Contudo, existem feridas que não aparecem em fotografias periciais. Há dores que não deixam sangue no chão, mas produzem destruição profunda no sistema nervoso, na autoestima e na própria percepção de dignidade humana. Algumas mulheres sobrevivem durante anos sob tensão permanente, convivendo com ameaças, manipulações emocionais, controle financeiro, isolamento social e agressões silenciosas.

A cultura do silêncio e do sofrimento

A cultura patriarcal historicamente as ensinou a cultura patriarcal ensinou as mulheres a suportarem o sofrimento em silêncio. Desde cedo, muitas aprendem que precisam aguentar pelo bem da família, ter paciência, evitar conflitos ou preservar o casamento. Essa submissão produz consequências devastadoras. E quando adoecem, o diagnóstico vem acompanhado de preconceito.

Mulheres relatam peregrinação interminável por consultórios médicos escutando que não têm nada, e que os exames estão normais. Ou, ainda, que o problema é psicológico. Assim, em ambientes de trabalho são vistas como improdutivas, e em casa como preguiçosas.

Preconceito na medicina

Historicamente, a medicina foi construída sob paradigmas masculinos. Durante séculos a dor feminina foi associada à histeria, ao descontrole emocional ou à fragilidade moral. Embora a ciência tenha avançado, parte desse imaginário permanece culturalmente vivo. Mulheres com fibromialgia precisam provar repetidamente que a sua dor existe.

A dimensão social e política

A dimensão é social, emocional e política. Estudos têm identificado correlação significativa entre experiências traumáticas e o desenvolvimento da fibromialgia.

Quando há falha do Estado na proteção das mulheres, quando a sociedade silencia diante da agressão, quando instituições relativizam denúncias, contribui-se para a perpetuação de doenças invisíveis que consomem vidas lentamente.

Um olhar mais humano é necessário

Essa discussão exige abordagem multidisciplinar e humanizada. Como a doença não produz alterações visíveis em exames laboratoriais, mulheres enfrentam o descrédito institucional, sendo consideradas aptas para o trabalho quando estão incapacitadas. É cruel exigir que alguém demonstre objetivamente uma dor que a própria medicina reconhece como subjetivamente intensa.

É o momento de romper com a invisibilidade. Imprescindível falar sobre saúde mental feminina sem preconceitos, retirando a desconfiança em relação repectiva dor. A violência psicológica mata lentamente. Profissionais precisam de preparo para reconhecer vínculos entre trauma e adoecimento crônico. A escuta empática é indispensável. A violência adoece...

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.