Artigo mostra que práticas regenerativas podem ajudar o solo, a água e a biodiversidade, mas precisam de comprovação científica, medição de resultados e viabilidade econômica. Especialista explica estudos, limites e desafios para o produtor.
A agricultura regenerativa cresceu nas conversas sobre sustentabilidade, segurança alimentar e mudanças climáticas. A ideia de recuperar a saúde do solo, melhorar o uso da água e preservar a biodiversidade responde a desafios reais da produção agrícola. O problema começa quando um conceito amplo é tratado como garantia de resultado, sem medir os benefícios e sem considerar as condições necessárias para alcançá-los.
A discussão não é negar a importância de produzir de forma mais sustentável, mas separar o que já tem respaldo científico do que ainda precisa de mais evidências. Em um setor que depende de planejamento, produtividade e decisões técnicas, essa distinção é fundamental para que a sustentabilidade vire resultado consistente no campo.
Entenda em cinco pontos
- Agricultura regenerativa busca recuperar solo, água e biodiversidade, mas não é receita pronta.
- A FAO analisou 229 artigos científicos e 25 páginas de organizações do setor e encontrou diferentes definições para o conceito.
- Um estudo com 90 meta-análises viu efeitos positivos de menos revolvimento do solo, matéria orgânica e culturas de cobertura.
- Pesquisa na Índia com 147 estudos viu benefícios mais expressivos em períodos superiores a cinco anos, mas os resultados variam conforme a região.
- A diversificação agrícola pode ajudar o meio ambiente e a renda, mas não mostrou ganho estatisticamente significativo de produtividade no conjunto analisado.
É preciso cautela: nem tudo que reluz é ouro. A questão não é questionar a importância de produzir de forma mais sustentável, mas distinguir o que já tem comprovação científica daquilo que ainda precisa ser comprovado. No campo, sustentabilidade deve significar resultados mensuráveis e consistentes.
Um dos primeiros desafios está na definição de agricultura regenerativa. Uma revisão da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que analisou 229 artigos científicos e 25 páginas de organizações do setor, encontrou diferentes interpretações para o conceito. Algumas priorizam práticas, como reduzir o revolvimento do solo e usar culturas de cobertura; outras enfatizam resultados, como aumentar o carbono orgânico, recuperar a biodiversidade e melhorar a qualidade do solo.
Adotar uma prática ligada à agricultura regenerativa não significa automaticamente que uma propriedade esteja regenerando o solo ou reduzindo impactos ambientais. É preciso verificar o que mudou, em qual intensidade, por quanto tempo e em comparação com qual situação inicial.
O que a ciência já mostra
Hoje a ciência já oferece evidências importantes sobre algumas dessas práticas. Um estudo publicado em 2025 na revista Soil Biology and Biochemistry, que reuniu resultados de 90 meta-análises, identificou efeitos positivos de estratégias como reduzir o revolvimento do solo, incorporar matéria orgânica e usar culturas de cobertura sobre diferentes grupos de organismos que vivem no solo. Os resultados reforçam a importância do manejo para a ciclagem de nutrientes e o funcionamento dos sistemas agrícolas, mas também apontam lacunas de conhecimento.
Outra evidência vem de uma análise publicada em 2025 na revista Scientific Reports. O trabalho avaliou 147 estudos feitos em diferentes regiões agroecológicas da Índia e identificou resultados favoráveis de práticas como aplicação de composto, esterco, biocarvão (biochar) e manutenção de resíduos vegetais na superfície do solo para aumentar o carbono orgânico. Os efeitos variaram conforme a estratégia e as condições locais, com benefícios mais expressivos em períodos superiores a cinco anos.
Esses resultados mostram o potencial de determinadas práticas, mas não autorizam aplicação indiscriminada. Evidências obtidas em solos e climas da Índia, por exemplo, não podem ser simplesmente transferidas para as diferentes regiões produtoras do Brasil. Elas oferecem referências relevantes, mas precisam ser complementadas por pesquisas feitas em condições semelhantes às de cada sistema de produção.
Textura e fertilidade do solo, regime de chuvas, temperatura, cultura cultivada e histórico de manejo interferem na resposta agronômica. Uma prática eficiente em uma propriedade pode ter resultados diferentes em outra, mesmo quando aplicada com o mesmo objetivo. Por isso, não existe receita única capaz de produzir os mesmos benefícios em qualquer situação.
Diversificação e custos no campo
A diversificação agrícola também merece atenção. Uma meta-análise publicada em janeiro de 2026 na revista Nature Communications, que reuniu 184 meta-análises, identificou benefícios de estratégias de diversificação para a rentabilidade financeira, a biodiversidade, a polinização, a qualidade do solo e o sequestro de carbono. Entretanto, não encontrou efeitos estatisticamente significativos sobre a produtividade das culturas no conjunto de resultados analisados.
Essa conclusão é importante porque mostra que benefícios ambientais não significam necessariamente aumento imediato de produtividade. A diversificação pode fortalecer o funcionamento dos sistemas agrícolas, mas cada resultado precisa ser avaliado conforme o indicador usado, o tempo de implementação e as condições em que as práticas foram adotadas.
Também é necessário considerar o aspecto econômico. A transição para novos sistemas de manejo pode exigir investimentos em máquinas, sementes, planejamento operacional e capacitação. Em alguns casos, os benefícios aparecem aos poucos, enquanto os custos são imediatos. Sem avaliar produtividade, custo por hectare e rentabilidade ao longo de várias safras, o produtor pode adotar uma estratégia promissora sem conhecer seus efeitos financeiros.
Isso não significa subordinar os ganhos ambientais exclusivamente ao retorno imediato. Significa reconhecer que uma transformação agrícola precisa ser tecnicamente viável e economicamente sustentável para continuar ao longo do tempo. A recuperação do solo exige continuidade, acompanhamento e capacidade de adaptação.
Insumos, solo e micronização
Outro cuidado é evitar a ideia de que regenerar significa necessariamente eliminar insumos agrícolas. A fertilidade do solo depende do equilíbrio entre propriedades físicas, químicas e biológicas. A matéria orgânica, a atividade dos microrganismos e a cobertura vegetal são componentes relevantes, mas não substituem, por si só, a necessidade de fornecer os nutrientes que as culturas demandam. O manejo adequado depende de diagnóstico, análise de solo e recomendação agronômica.
Nesse processo, a micronização é uma etapa importante no preparo das fontes minerais. A redução do tamanho das partículas amplia a superfície de contato com o solo e a água, o que favorece a dissolução e a reação dos minerais. No caso dos componentes corretivos, a micronização pode acelerar a neutralização da acidez nos pontos em que eles reagem. Isso cria condições mais favoráveis ao desenvolvimento das raízes e ao aproveitamento de macro e micronutrientes.
As partículas mais finas também podem ser transportadas pela água através dos poros e canais do solo, o que contribui para sua ação em subsuperfície. Essa possibilidade é especialmente relevante em pastagens, culturas perenes, soqueiras de cana e sistemas de plantio direto, nos quais a incorporação é limitada ou indesejável. Esse deslocamento, porém, depende da granulometria, da estrutura do solo e da infiltração de água. Quando essas condições são adequadas, a micronização pode favorecer um manejo com menor revolvimento, que preserva a estrutura, a cobertura e a atividade biológica do solo.
O mesmo rigor deve ser aplicado às alegações relacionadas ao carbono. O aumento do carbono orgânico do solo pode representar um benefício ambiental importante, mas sua quantificação exige critérios consistentes, medições adequadas e acompanhamento ao longo do tempo. Também é necessário considerar a permanência do carbono armazenado e as emissões associadas ao sistema de produção. Sem esse cuidado, uma possibilidade agronômica pode acabar apresentada como uma promessa ambiental que os dados não sustentam.
Como medir e avançar no Brasil
O Brasil tem condições particulares para avançar nessa discussão. A diversidade de solos e climas, a escala da produção agrícola e a experiência acumulada em sistemas como o plantio direto e a integração entre lavoura, pecuária e floresta oferecem oportunidades para desenvolver soluções adaptadas à realidade nacional. O desafio é ampliar a geração de evidências e aproximar a pesquisa das decisões tomadas pelos produtores.
Para isso, precisamos de critérios objetivos. A avaliação de uma iniciativa regenerativa deve partir de uma linha de base e acompanhar indicadores como carbono orgânico, infiltração de água, erosão, atividade biológica, produtividade e custos de produção. Os resultados precisam ser comparados ao longo do tempo, com métodos transparentes e adequados às condições locais.
A agricultura regenerativa tem potencial para contribuir com uma produção mais resiliente e com a conservação dos recursos naturais. Mas esse potencial não deve ser confundido com resultado garantido, nem usado como argumento suficiente para classificar uma prática ou propriedade como sustentável.
O avanço do setor depende menos da força de um rótulo e mais da capacidade de demonstrar o que funciona, em quais condições e com quais resultados. A ciência não enfraquece a agricultura regenerativa ao apontar suas limitações; muito pelo contrário, oferece instrumentos para aperfeiçoá-la, identificar seus benefícios reais e corrigir expectativas que não encontram respaldo nos dados.

Divulgação/Massari Fértil e Morro Verde



