08 de outubro de 2026

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Agro precisa cuidar da própria imagem em vez de culpar a imprensa

Agronegócio Reputação 08/10/2026 10:05 Ricardo Nicodemos | ABMRA

Presidente da ABMRA, Ricardo Nicodemos, argumenta que o setor agronegócio deve construir sua reputação por meio de diálogo, transparência e apoio ao jornalismo independente, abandonando a ideia de que a mídia deve agir como uma agência de publicidade.

O agronegócio brasileiro é um dos líderes mundiais na produção de alimentos, fibras e energia. No entanto, quando o assunto é a imagem pública, parte do setor ainda acredita que sua reputação depende exclusivamente de como a imprensa o retrata. Essa visão, segundo especialistas, precisa ser revisada.

Estudos realizados com apoio da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA) apontam uma realidade diferente da imaginada pelos produtores. A pesquisa "Percepções Sobre o Agro: O que Pensa o Brasileiro" revela que sete em cada dez brasileiros têm uma visão positiva do setor. Em contrapartida, a 9ª Pesquisa ABMRA Hábitos do Produtor Rural mostra que 65% dos produtores rurais acreditam que são vistos de forma negativa pela população urbana. Existe, portanto, um descompasso entre a percepção da sociedade e a autopercepção do agro.

  • 7 a cada 10 brasileiros veem o agronegócio de forma positiva, aponta a ABMRA.
  • 65% dos produtores rurais acreditam que a cidade os vê com maus olhos, o que gera descompasso.
  • O erro principal é confundir jornalismo (que informa) com publicidade (que vende).
  • Lideranças do agro devem assumir a responsabilidade pela construção da própria imagem.
  • O projeto Marca Agro do Brasil atua em educação, comunicação e relacionamento com a sociedade.

O papel dos líderes no diálogo com a sociedade

Esse cenário sugere que o grande desafio do agronegócio não é convencer a população de sua importância, pois essa visão já é positiva, mas sim estabelecer um diálogo constante com a sociedade. Essa responsabilidade recai, primordialmente, sobre os próprios membros do setor. Líderes e executivos de marketing precisam compreender que jornalismo e publicidade desempenham funções distintas e complementares, mas não idênticas.

O jornalismo tem a missão de informar, apurar fatos e contextualizar a realidade com independência, sem a obrigação de agradar empresas específicas. Já a publicidade tem o papel de posicionar marcas e produtos através de anúncios, campanhas e diferenciais estratégicos para atrair o mercado.

A independência da imprensa é fundamental

Confundir esses dois papéis é um erro que precisa ser evitado. Não cabe à imprensa construir ou proteger a reputação de qualquer atividade econômica. Sua função é investigar, informar com autonomia e fornecer elementos para que o cidadão forme sua própria opinião. É justamente essa independência que garante a credibilidade da mídia.

Eventos de maior impacto e polêmica naturalmente recebem mais atenção pública, pois exigem debate e prestação de contas. Esperar que a imprensa publique apenas notícias favoráveis ao agronegócio seria desvirtuar sua missão essencial. A reputação de um setor é moldada por suas práticas diárias, pela forma como lida com crises e pela qualidade de suas relações com a comunidade.

Transparência e combate às irregularidades

O agronegócio possui conquistas reconhecidas em produtividade, inovação e sustentabilidade. Contudo, enfrenta desafios que devem ser tratados com seriedade. Casos de desmatamento ilegal, trabalho análogo à escravidão ou outras irregularidades precisam ser combatidos com rigor. Negar esses problemas ou reagir de forma defensiva não fortalece a imagem do setor. O caminho correto é esclarecer que esses episódios são atos isolados que não representam a maioria dos produtores e que o agro tem interesse em afastar quem age à margem da lei.

Foi com essa mentalidade que nasceu o Projeto Marca Agro do Brasil. A iniciativa não funciona como uma simples campanha publicitária, mas como uma estratégia de longo prazo para construir imagem e reputação. Ela se apoia em três pilares: consistência, frequência e sequência.

As três frentes do projeto Marca Agro

O projeto atua em três frentes principais. A primeira é a educação, que visa aproximar os jovens da realidade do campo, mostrando a origem dos alimentos e produtos do cotidiano. A segunda é a comunicação, utilizando uma linguagem acessível e baseada em dados e evidências para conectar as pessoas ao campo. A terceira é o relacionamento, que amplia o diálogo com jornalistas, universidades e formadores de opinião para reduzir desinformações e facilitar o acesso a informações técnicas de qualidade. Mais informações estão disponíveis no site marcaagrodobrasil.com.br.

Essa estratégia exige o fortalecimento da imprensa especializada. Embora as empresas tenham aumentado investimentos em canais digitais próprios, isso não substitui o papel do jornalismo independente. O jornalismo permite aprofundar temas complexos, divulgar ciência e combater a desinformação, algo difícil de fazer apenas com algoritmos ou redes sociais.

Construção de confiança e conclusão

Apoiar esse ecossistema de comunicação não significa buscar favores, mas reconhecer que informação de qualidade depende de veículos sólidos e independentes. Em um mundo dominado pela velocidade das redes e pela inteligência artificial, a confiança é um ativo estratégico vital.

O agronegócio brasileiro tem todas as condições para fortalecer sua reputação, pois produz conhecimento e inovação reconhecidos globalmente. O desafio é transformar esses ativos em uma comunicação permanente, transparente e baseada em evidências. Enquanto o jornalismo cumpre seu papel de informar com independência, cabe ao agronegócio investir em diálogo e qualidade, construindo uma reputação à altura de sua importância para o Brasil e para o mundo.