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Milho dos EUA sofre corte na produção e China e Argentina mudam o jogo no mercado de grãos

Agronegócio Agronegocio 15/09/2026 09:16 Agência Contatto / Biond Agro

O USDA reduziu as estimativas de produção de milho nos Estados Unidos, aumentando a incerteza sobre a colheita. Enquanto a soja tem produção maior, os estoques caem devido ao avanço das exportações. A China mantém-se seletiva nas compras e a Argentina ganha força no mercado de milho, pressionando os preços no Brasil.

A safra americana de grãos chega à sua reta final com mudanças de grande importância nos números projetados para a soja e o milho. No caso do milho, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) reduziu mais uma vez as estimativas de produtividade e produção. Essa revisão aproxima os dados oficiais do cenário de maior cautela que já havia sido apontado pela pesquisa Pro Farmer em agosto.Na soja, a situação é diferente: a produção foi estimada mais alta, porém, o aumento forte das exportações fez com que os estoque finais do grão caísse, gerando atenção redobrada do mercado mundial.

  • Produção de milho nos EUA caiu para 401,3 milhões de toneladas.
  • Soja americana teve alta de 0,3% na produção, mas estoques caíram.
  • China mantém demanda, mas faz compras mais seletivas e baratas de grãos.
  • Argentina, com safra recorde, aumenta a competição pelo mercado de milho.
  • Conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia continuam afetando os custos e fluxos de exportação.

Os dados divulgados pelo USDA em setembro colocaram a colheita americana no centro das atenções de todo o agronegócio global. No milho, ainda existe uma diferença relevante entre as estimativas do órgão americano e as do Pro Farmer. Essa divergência deve ser esclarecida apenas com o avanço dos trabalhos no campo.

Milho tem corte na produtividade e reduz estoques

A produtividade do milho nos Estados Unidos caiu de 189 para 186,4 sacas por hectare. Com esse ajuste, a produção total estimada reduziu de 406,8 milhões para 401,3 milhões de toneladas. Além disso, os estoques finais também foram diminuídos, de 42 milhões para 39,8 milhões de toneladas.

No levantamento feito pelo Pro Farmer em agosto, a produção estava ainda mais baixa, com estimativa de 181,2 sacas por hectare e um total de 389,5 milhões de toneladas. A diferença entre as duas projeções é de aproximadamente 11,8 milhões de toneladas. Para Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o ajuste do USDA mostra que o órgão já está reagindo aos sinais do mercado.O USDA já começou a incorporar uma parte do que o Pro Farmer havia sinalizado em agosto, principalmente no milho. Ainda existe uma diferença importante entre as estimativas, e agora a colheita passa a ser fundamental para mostrar qual cenário está mais próximo da realidade, afirma a analista.

No mercado global, o cenário segue apertado: os estoques finais de milho da safra 2026/27 também sofreram redução, caindo de 274,7 milhões para 272,1 milhões de toneladas. Essa redução global de oferta tende a sustentar os preços em patamares mais elevados.

Soja produz mais, mas o estoque diminui

Na cultura da soja, o movimento observado foi diferente do milho. O USDA elevou a produção dos Estados Unidos para 123,4 milhões de toneladas, uma alta de 0,3% em relação à estimativa de agosto. Apesar desse crescimento na oferta interna, os estoques finais foram reduzidos, saindo de 8,7 milhão para 8,4 milhões de toneladas.

A explicação está nas exportações. A projeção de vendas internacionais dos EUA para a soja subiu de 45,2 milhões para 45,9 milhões de toneladas. Mesmo com o consumo doméstico elevado, a saída de grão para fora do país foi tão intensa que absorveu o ganho de produção. O resultado é um balanço em que a oferta aumenta, mas o acúmulo de estoque não ocorre.O número da produção, sozinho, não conta toda a história da soja americana. As exportações foram revisadas para cima e isso ajuda a explicar por que os estoques finais caíram mesmo com uma safra maior. Daqui para frente, a execução dessa demanda será um dos pontos mais importantes para o mercado, analisa Yedda.

No cenário mundial, a produção de soja para 2026/27 está estimada em cerca de 442,4 milhões de toneladas. Esse volume está praticamente igual ao previsto para o consumo global. Os estoques finais mundiais devem permanecer próximos de 124 milhões de toneladas, indicando um mercado equilibrado.

China mantém demanda, mas compra com mais seletividade

A China continua sendo o principal centro de atenção para o mercado de soja. O USDA manteve a projeção de importações chinesas para 2026/27 em 115 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno foi estimado em 136 milhões de toneladas. Os estoques no país ficaram em 44,3 milhões de toneladas.

Porém, a dinâmica das compras mudou. Os estoques nos portos chineses aumentaram nas últimas semanas, o que reduziu a urgência de novas aquisições imediatas. Nos próximos meses, a programação de chegada de soja tende a diminuir. As pequenas e médias esmagadoras de soja enfrentam margens mais apertadas e consideram o produto brasileiro relativamente caro.

Dessa forma, parte das empresas chinesas já planeja reduzir o volume de esmagamento entre dezembro e fevereiro. Nesse contexto, o momento e a origem das compras feitas pela China ganham destaque. Eles serão decisivos para definir os preços internacionais e os prêmios pagos pelas exportações brasileiras.

Argentina aumenta a disputa pelo milho

Com a menor produção projetada nos Estados Unidos, o cenário no milho encontra uma forte oferta na América do Sul. Na Argentina, a safra recorde aumentou a quantidade disponível para exportação, mantendo o cereal muito competitivo em diversos destinos ao redor do mundo. A comercialização do grão pelo produtor argentino também avançou significativamente.

Essa presença cada vez mais forte da Argentina pesa diretamente sobre o milho brasileiro, especialmente nos mercados onde os dois países concorrem. A proximidade logística também é um fator determinante: os portos brasileiros que ficam mais perto da Argentina tendem a sentir essa concorrência de forma mais intensa.

O corte na produção americana dá algum suporte ao milho no mercado internacional, mas isso não significa necessariamente uma reação igual nos preços brasileiros. A oferta argentina continua forte e coloca uma pressão competitiva importante sobre o produto do Brasil, avalia Yedda.

Conflitos mantêm o mercado sensível

Além dos fatores de oferta e demanda, os conflitos internacionais continuam a influenciar os preços dos produtos agrícolas. No Oriente Médio, o petróleo é um ponto central. Uma alta no preço da energia pode melhorar a competitividade dos biocombustíveis, ajudando o óleo de soja, mas também eleva os custos com diesel, frete e insumos para o produtor brasileiro.

Na Ucrânia, o conflito impacta o fluxo das exportações. O USDA elevou a produção de milho do país para 31,8 milhões de toneladas, mas diminuiu a projeção de exportação para 22 milhões de toneladas. Com isso, os estoques finais ucranianos subiram para 5,5 milhões de toneladas, limitando a oferta internacional.

Para Yedda, os próximos dados de campo serão cruciais para definir como o mercado interpretará a safra americana. Agora o mercado precisa de confirmação. No milho, principalmente, a diferença entre as estimativas ainda é grande. A produtividade que vier da colheita americana, junto com o ritmo das compras da China e a oferta da América do Sul, vai ajudar a definir os próximos movimentos dos preços, complementa.