Empresa capta R$ 23 milhões para automatizar testes de patógenos e resistência genética em lavouras, prometendo uma fábrica que produzirá 4 milhões de chips por ano e reduzindo custos e tempo de análise.
Durante a pandemia de coronavírus, entre 2020 e 2021, a sigla PCR ganhou fama. Esse teste, considerado o padrão-ouro para detectar o vírus SARS-CoV-2, exigia laboratórios para analisar material genético.
No setor agrícola, essa estrutura é lenta e cara. As amostras precisam chegar intactas, passar por preparação, purificação e análise específica, demorando muito para chegar ao produtor.
- A Doroth desenvolveu um chip que automatiza diagnósticos moleculares no campo.
- A startup captou R$ 23 milhões para montar uma fábrica de 4 milhões de chips.
- A tecnologia reduz o tempo de análise de semanas para poucas horas.
- Grandes empresas do agro, como Bayer e Corteva, já são clientes.
- A meta é criar a primeira indústria de chips microfluídicos da América Latina.
Para acelerar esse processo, a deeptech Doroth criou uma tecnologia que usa chips microfluídicos para automatizar etapas que, antes, exigiam laboratórios e especialistas.
"Num esquema de teste de PCR tradicional, até o resultado chegar na mão do agricultor, estamos falando de várias semanas, na maior parte das vezes, mais de 30 dias", conta Rodrigo Gurdos, cofundador e CEO da empresa.
A proposta é permitir que técnicos agrícolas identifiquem doenças e genes de resistência direto na fazenda, sem esperar a análise do laboratório.
"É um sistema como se fosse uma cafeteira Nespresso: eu tenho que fazer o chip, que é a cápsula, e o equipamento, que é a cafeteira de fato", resume Gurdos.
Para dar escala, a startup levantou R$ 23 milhões em uma rodada liderada pela biotecnologia Loccus, com apoio de editais da Finep e Fapesp.
Com esses recursos, a Doroth iniciará ainda neste ano a construção de uma planta automatizada, capaz de fabricar 4 milhões de chips anuais.
Muitos equipamentos virão da China, que domina a produção mundial, mas a estratégia é adaptá-los à realidade local no Brasil.
"Quando a gente traz esses equipamentos para cá e padroniza para a indústria, nós nos tornamos, naturalmente, a primeira indústria de chips microfluídicos na América Latina", diz Gurdos.
Da pesquisa à fábrica
A Doroth trabalha com três componentes: chips microfluídicos, equipamentos de teste e reagentes moleculares.
O chip, feito de plástico, tem canais por onde correm os líquidos e reações químicas, exigindo precisão no tamanho micrométrica.
Os reagentes incluem enzimas produzidas pela própria empresa, usando microrganismos geneticamente modificados.
Redução de custos e escalabilidade
Produzir internamente esses itens ajuda a baixar custos. Um sensor óptico importado custa R$ 25 mil, mas o da Doroth sai por cerca de R$ 1.200.
"A gente contratou engenheiros para desenvolver os nossos próprios sensores. E hoje os nossos sensores estão saindo na faixa de R$ 1.000, R$ 1.200", diz o CEO.
A nova fábrica substituirá o método artesanal, onde apenas duas pessoas fabricavam 30 chips por dia em sala com controle de umidade.
"Hoje produzimos 30 chips por dia. Com a fábrica, aumentamos para 10 chips por minuto", adianta Gurdos.
A empresa também investe na produção de enzimas, com 80% dos equipamentos já instalados.
Modelo de negócio e clientes
Até o início de 2027, a primeira fase será concluída, visando uma "dark factory" (fábrica com pouca intervenção humana) até o fim de 2027.
O negócio começa com pesquisa contratada por empresas do agro, adaptando a solução para a necessidade do cliente.
Entre os parceiros estão CTC, FMC, Bayer, BASF, Corteva, Syngenta e Suzano.
Também há interesse em frigoríficos, para detectar bactérias como a salmonella, que causa infecções de estômago.
Um caso prático envolve a detecção de patógenos em cana-de-açúcar, que antes levava 45 dias. A doroth analisa 100 amostras por hora, com custo de R$ 60 por teste.
Com 110 mil análises estimadas, o potencial de receita anual é de R$ 6,6 milhões.
Uma "pivotada" na operação
Fundada em 2019, a Doroth já foi pioneira, mas abandonou projetos que não encontraram mercado.
Um exemplo é o Dot-AR, que detectava esporos de ferrugem asiática no ar, mas parou por falta de demanda comercial.
Outro serviço, o DotSol, de mapas de solos, está sendo encerrado para focar em testes on-site.
Investimentos e liderança
A liderança mudou: Camila Amaral foca na indústria, enquanto Gurdos assume a comunicação com clientes e investidores.
Samuel Oliveira divide a atenção entre a startup e uma universidade nos EUA.
A empresa já recebeu R$ 13 milhões de investidores privados e R$ 24 milhões de editais públicos.
O grupo Agroven entrou cedo com R$ 1,1 milhão, valorizando o risco técnico assumido pela startup.
"Eles acreditaram lá atrás em uma tese... A Agroven assumiu esse risco", emenda Gurdos.
Silvio Passos, da Agroven, destaca a importância de apostar cedo em biotecnologia para o agro.
Resumo
- A Doroth quer cortar o tempo de diagnóstico de 45 dias para poucas horas.
- Foram captados R$ 23 milhões para a nova fábrica de chips.
- A capacidade será de 4 milhões de unidades por ano.

Da esquerda para a direita, Samuel Oliveira (Doroth), Eduardo Araújo (Loccus), Camilla Amaral (Doroth), Luiz Okano (Doroth) e Rodrigo Gurdos (Doroth) (Ajustada por IA)


