24 de outubro de 2026

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São Paulo perde 10 programas de pesquisa agrícola por falta de cientistas no IAC, ameaçando segurança alimentar

Agronegócio Pesquisa 14/09/2026 14:17 Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) Campinas SP

Um levantamento da APqC revela que o IAC interrompeu pesquisas de melhoramento genético em culturas como soja e trigo devido à falta de substitutos para aposentados. Bancos de germoplasma, que preservam sementes raras, estão sem manutenção adequada, gerando risco ao desenvolvimento de novas variedades e à economia do estado.

O Centro de Grãos e Fibras do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, sofreu a interrupção de dez programas de pesquisa focados em melhoramento genético. Segundo um novo levantamento da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), a causa principal é a falta de reposição de profissionais. As culturas afetadas por essa paralisia incluem arroz, crotalária, algodão, mamona, girassol, gergelim, aveia, trigo, triticale e soja.

A situação decorre diretamente do envelhecimento do quadro de funcionários. Pesquisadores responsáveis, especialmente melhoristas, aposentaram-se ou faleceram sem que novos entrassem para ocupar suas funções. Esses profissionais eram essenciais não apenas para desenvolver novas sementes, mas também para manter os acervos de linhagens e variedades que compõem as coleções do instituto.

Dados relevantes sobre a crise na pesquisa agrícola

  • Dez programas de melhoramento genético foram totalmente interrompidos por falta de pessoal.

  • Outros sete programas seguem ativos, mas contam com apenas um pesquisador cada.

  • Os bancos de germoplasma, que guardam sementes raras, estão sem manutenção adequada.

  • Um relatório de 2009 já alertava para a perda de até 79% dos pesquisadores em 10 anos.

  • Três especialistas migraram para a Embrapa em busca de melhores salários e benefícios.

Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC, classificou a situação como uma negligência grave do Estado. São linhas de pesquisa diretamente relacionadas à produção de alimentos e à segurança alimentar. Permitir que programas construídos durante décadas sejam interrompidos por falta de reposição de pesquisadores demonstra uma negligência grave do Estado com um patrimônio científico que pertence à sociedade, afirmou.

O diagnóstico também aponta que outros sete programas de melhoramento estão em estado crítico, sustentados por apenas um pesquisador cada. Esse cenário atinge culturas como adubos verdes, milho, milho-pipoca, grão-de-bico, sorgo, sorgo forrageiro e vassoura. Embora algumas linhas ainda mantenham a produção de sementes, a APqC alerta que esse esforço é momentâneo e não garante a continuidade do trabalho científico a longo prazo.

Lutgens explicou que a ausência de novos profissionais gera o que chama de apagão científico. Além da paralisação do desenvolvimento de novas cultuvars, a falta de equipe técnica compromete a preservação dos bancos de germoplasma. Esses bancos funcionam como um resguardo da diversidade genética, armazenando materiais que podem ser fundamentais para enfrentar futuras doenças, pragas ou mudanças climáticas extremas.

Os acervos do IAC guardam materiais que não estão mais disponíveis no mercado. O valor de um acesso genético pode emergir anos depois de sua incorporação, quando uma característica específica passa a ser necessária para enfrentar novas adversidades ambientais. A presidente da APqC reforça que a manutenção desses bancos exige esforço contínuo, pois as sementes perdem capacidade de germinação ao longo do tempo.

Desafios na preservação de sementes e recursos raros

Helena destaca que os bancos não são apenas depósitos estáticos em câmaras frias. Com o tempo, eles perdem capacidade de germinação e precisam ser levados ao campo para serem multiplicados e novamente conservados, comenta. No caso do milho, por exemplo, o processo pode exigir polinização manual e controle rigoroso para impedir cruzamentos indesejados, tarefas que demandam pesquisadores e técnicos altamente especializados.

A conexão entre a preservação das sementes e os programas de melhoramento é indissociável. O conhecimento das técnicas de melhoramento é resultado de anos de pesquisa e não é recuperado automaticamente com a contratação de outro profissional. Sem atualização, o banco de germoplasma fica parado no tempo, reforça Lutgens. Essa perda de saber técnico dificulta a geração de inovação no campo.

As consequências da falta de manutenção já são visíveis. O germoplasma de girassol já registrou perdas significativas após o falecimento da pesquisadora responsável pelo programa. Esse caso exemplifica como a dependência de profissionais específicos coloca em risco patrimônio científico que leva décadas para ser construído, mas que pode desaparecer rapidamente sem uma estrutura de suporte adequada.

A relação direta entre a equipe técnica e a viabilidade das pesquisas mostra que a ausência de substitutos não é apenas uma questão administrativa, mas uma ameaça à capacidade de adaptação da agricultura paulista. Perder a continuidade dessas linhas implica perder a possibilidade de responder a novas pragas ou condições climáticas no futuro.

Efeito dominó na carreira e migração para o setor privado

Além das aposentadorias, o Centro de Grãos e Fibras perdeu três pesquisadores que migraram para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A APqC aponta que a diferença salarial é o principal fator de afastamento. Um pesquisador científico de São Paulo, no topo da carreira, recebe menos da metade do que um profissional de nível equivalente na Embrapa, que ainda oferece benefícios adicionais como sexta-parte e bônus por titulação.

A Lei Complementar nº 1.435/2025, em vigor desde dezembro de 2025, alterou a estrutura da carreira e extinguiu o Regime de Tempo Integral (RTI). A norma ampliou os níveis de progressão de seis para 18, o que, na visão da associação, cria uma burocracia que dificulta a evolução profissional. Em vez de reter talentos, a mudança acelerou a saída de cientistas e ameaçou o acúmulo de conhecimento.

Antes da regulamentação completa das mudanças na remuneração, a Justiça de São Paulo proibiu o Estado de exigir que os pesquisadores optassem pelo novo regime, por meio de uma ação civil pública movida pela APqC. Essa decisão temporária buscou proteger os direitos dos servidores enquanto não há clareza sobre os impactos financeiros e funcionais da nova lei, que retirou conquistas históricas como quinquênios e a sexta-parte para quem optou pelo subsídio.

A incerteza jurídica e as condições piores de trabalho criam um ambiente tóxico para a permanência de especialistas. Sem a atratividade necessária, o Estado de São Paulo vê sua base de conhecimento técnico escorrer, o que compromete não apenas a agricultura, mas toda a cadeia de suprimento de alimentos, pois a pesquisa é o primeiro elo nesse processo.

Alerta ignorado e consequências para o futuro

Este não é um problema recente. Um relatório técnico de 2009 já alertava que, sem reposição, o IAC perderia 39% de seus pesquisadores em cinco anos e 79% em dez. Na época, o instituto tinha 197 cientistas e já mostrava necessidade urgente de contratações. O Centro de Grãos e Fibras, particularmente, já passava por uma crise severa, com quedas no quadro e projeções de aposentadorias iminentes.

Naquela década, o Centro contava com 22 pesquisadores, número que caiu drasticamente após a saída de 15 profissionais entre 2005 e 2008. Hoje, esse número chegou a apenas sete cientistas. O documento de 2009 já identificava a carência de profissionais para culturas de inverno, soja, algodão e amendoim, alertando para a necessidade de desenvolver sementes tolerantes a estresses como calor e seca, uma previsão que se tornou realidade com o avanço da mudança climática.

Esse histórico mostra uma falha crônica no planejamento de longo prazo do sistema público de pesquisa em São Paulo. O que era um alerta estatístico transformou-se em uma crise de funcionamento. A ausência de contratações nos últimos 17 anos resultou na paralisação de projetos que sustentam a inovação agronômica do estado, impactando diretamente a capacidade de resposta do setor agrícola frente às novas demandas ambientais.

A continuidade das pesquisas depende também das áreas experimentais de campo. São nesses espaços que as sementes são plantadas, avaliadas e multiplicadas. Atualmente, apenas oito tipos de grãos conseguem manter a produção de sementes, incluindo arroz, amendoim, crotalária, milho, mamona, triticale, sorgo forrageiro e vassoura, o que reflete a severa limitação de recursos humanos e técnicos disponíveis.

Falhas no sistema experimental e na formação de novos talentos

O manejo dessas áreas exige planejamento rigoroso para evitar contaminação genética. Determinadas sementes precisam ser plantadas longe de outras para impedir cruzamentos. No milho, a preservação de linhagens puras exige isolamento físico e polinização controlada. Muitas vezes, esses acessos precisam ser testados em climas diferentes e até em condições distintas de exposição a pragas nas várias regiões do Estado, diz Helena. Sem essas experiências, não é possível garantir o sucesso da agricultura no futuro.

São Paulo possui 39 áreas de pesquisa agropecuária, incluindo a Fazenda Santa Elisa, em Campinas. Essa unidade abriga experimentos e parte das coleções de germoplasma, incluindo café de espécies raras. Cada local serve para testar como as plantas reagem a diferentes solos e climas. Sem uma rede diversificada, é impossível validar uma variedade antes de recomendá-la aos produtores rurais, retardando a chegada de tecnologias eficientes ao campo.

Essa rede experimental é o laboratório ao ar livre onde a teoria encontra a realidade do clima. A perda de pessoal não afeta apenas a sala do pesquisador, mas toda a logística de campo. Sem técnicos e cientistas para gerir esses plantios, os resultados ficam inconclusivos, e a sociedade perde o acesso a sementes mais resistentes e produtivas, afetando a renda do agricultor e a qualidade dos alimentos na mesa do consumidor.

A última tentativa de renovação do quadro ocorreu em 2022, quando o então governador Rodrigo Garcia autorizou apenas 37 vagas para todos os institutos ligados à agricultura. Essa quantidade é considerada insuficiente pela APqC face à redução histórica dos quadros. Além do problema de especialistas, falta também servidores de apoio, essenciais para laboratórios e campo. Em 2026, o governo ainda lançou um programa que extinguiu mais de 5 mil cargos de apoio, agravando a crise.

Não estamos falando apenas da perda de postos de trabalho dentro de um instituto. Quando o Estado interrompe programas de melhoramento, deixa bancos de germoplasma sem equipes e reduz as estruturas de campo e laboratório, o impacto chega ao agricultor e à vida das pessoas, conclui Helena. É a pesquisa que desenvolve variedades mais resistentes, permite produzir com menos insumos, responde às mudanças climáticas e contribui para reduzir perdas. O resultado desse conhecimento está na produção de alimentos, na preservação ambiental, na saúde da população e na economia de São Paulo. Desmontar essa estrutura significa comprometer a capacidade do Estado de responder aos desafios que já estão colocados para a agricultura.