O país depende quase totalmente de fertilizantes estrangeiros, o que aumentou custos e reduziu a previsibilidade logística. Sergio Rocha, CEO da Agrotools, explica que a solução passa por usar inteligência e dados para aplicar insumos com precisão no campo, evitando desperdício e maximizando a produtividade da safra.
O Brasil depende quase inteiramente do exterior para obter a maioria dos fertilizantes usados no campo. Em 2025, a importação alcançou 45,5 milhões de toneladas. No ano seguinte, a situação ficou mais tensa: apesar de importarmos menos volume, pagamos um preço final maior. Isso afeta diretamente o bolso do agricultor e a segurança da produção.
Além do preço alto, há o problema de chegar no momento certo. O insumo não pode só chegar ao porto; ele precisa estar disponível na fazenda no tempo certo, sem filas nem fretes abusivos. Pequenos atrasos na cadeia logística podem virar grandes prejuízos se a lavoura precisar do nutriente em uma fase específica.
- O Brasil importou 93% dos fertilizantes consumidos em 2025.
- De janeiro a maio de 2026, as importações caíram 8,7%, mas o preço subiu 14,4%.
- O governo criou o Profert para incentivar fábricas locais, mas isso leva tempo para dar certo.
- A soja produz menos grãos por tonelada de adubo do que fazia em 1993, mostrando ineficiência.
- Dados de satélite e solo ajudam a aplicar o fertilizante apenas onde e quando é necessário.
A vulnerabilidade do preço e da logística
Os números recentes mostram o quão rápido a situação pode piorar. De janeiro a maio de 2026, a entrada de fertilizantes nitrogenados e fosfatados no país diminuiu 8,7%. O volume caiu de 7,69 milhões para 7,02 milhões de toneladas. No mesmo período, porém, o preço médio subiu 14,4%. O resultado foi que o gasto total do país aumentou 4,4%, mesmo recebendo menos produto. Ou seja: o Brasil pagou mais por menos.
Esse cenário mostra uma fragilidade maior que apenas a cotação internacional. Quando o insumo fica caro na origem, o frete, o armazenamento e a demora para entregar pesam ainda mais. Por isso, a gestão desses produtos deve começar antes mesmo de o navio atracar no cais.
Nessa lógica, a logística é parte da agricultura. O fertilizante só tem valor se estiver lá quando a planta precisa. Chegar tarde pode bagunçar o planejamento, gastar mais dinheiro e deixar tudo imprevisível. Um atraso nos portos de Paranaguá, Santos ou no Arco Norte vira fila de caminhões, fretes caros e incerteza na fazenda. O produtor tem que comprar, organizar e posicionar o produto conforme o plano da lavoura. Quanto mais incerto o cenário, mais capital o agricultor precisa reservar para cobrir riscos.
O programa Profert e a produção nacional
Para reduzir essa dependência, existe o Profert, o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes. Ele é um passo importante. Em agosto, o Senado aprovou até R$ 10 bilhões em incentivos para construir e modernizar fábricas. O texto já foi enviado ao presidente para ser sancionado.
Essa iniciativa é necessária. Produzir mais dentro do país deixa o Brasil mais forte contra choques externos e cria uma cadeia de abastecimento mais estável. Porém, é preciso separar o que é meta de longo prazo do que é urgência de hoje.
Fábrica de fertilizante não surge da noite para o dia. Precisam-se de dinheiro, infraestrutura, matéria-prima, energia e gás natural em condição de mercado, além de tempo para construir. O Profert pode mudar a estrutura de oferta nos próximos anos, mas a safra que está sendo preparada agora lida com os preços e fretes de hoje. É nesse intervalo que a eficiência no uso do que já chega ao campo faz a diferença.
Aplicar mais insumo nem sempre aumenta a produção
Dentro da propriedade, existe um problema técnico: saber onde, quanto e quando aplicar. Um estudo do Instituto Escolhas revela que o uso de fertilizantes na soja saltou de 728 mil toneladas em 1993 para 6 milhões em 2022, um aumento de 734%.
No mesmo período, a produtividade por tonelada de fertilizante caiu de 517 para 333 sacas de soja. Isso não significa que o adubo não é essencial. Quer dizer que a relação entre quantidade e resultado precisa ser mais precisa. O solo não é uniforme; a necessidade varia conforme o histórico da planta, o clima e o manejo.
Se o produtor aplica a mesma dose em toda a área, pode cometer dois erros ao mesmo tempo: faltar nutrientes em alguns pontos e sobrar em outros. Antes de ser um problema técnico, é financeiros. O dinheiro entra no solo, mas não se transforma necessariamente em mais comida colhida.
O poder dos dados na agricultura
É aqui que a informação vira uma ferramenta de gestão. A campo, geramos muitas informações: análises de solo, mapas de produtividade, imagens de satélite, clima e rotas de transporte. O desafio não é ter mais dados, mas conectá-los para tomar decisões melhores.
A inteligência espacial ajuda a identificar diferenças dentro da fazenda e sugere aplicar mais ou menos insumo em cada lugar, baseando-se na necessidade real do solo. Essa lógica pode ir além da fazenda. Ao cruzar a localização da propriedade com a origem do fertilizante, a distância e o frete, dá para saber o custo real do produto entregue lá, e não só o preço anunciado na origem.
Essa mesma lógica vale para o dinheiro e o risco. Dados territoriais ajudam bancos e seguradoras a entender melhor o risco de uma operação agrícola, olhando as características específicas daquele lugar.
A próxima fronteira: eficiência e informação
Muitas discussões param na questão de produzir fertilizante no Brasil. Precisamos olhar para frente. Reduzir a dependência externa é vital, assim como melhorar os portos. Mas há uma terceira frente: fazer cada tonelada de fertilizante que entra gerar o máximo de lucro agronômico.
Isso exige planejamento e conhecimento do solo. Também exige mudar a visão sobre o dado. Ele não é só mais uma tecnologia para o agricultor usar, mas uma ferramenta que liga decisões que ainda são tomadas de forma isolada.
O Brasil deve seguir investindo em fábricas e estradas. Mas não pode esperar só por isso para se proteger. Enquanto tudo é construído, já dá para começar a reduzir desperdícios e melhorar a forma de decidir. Assim, o insumo que chega vira produtividade e segurança.
Do porto até a plantação, a segurança do fertilizante não depende só de quanto produzimos ou importamos. Depende de quanto conseguimos transformar cada tonelada em resultado e margem para quem planta.
Nessa conta, ter informação de qualidade não é mais um diferencial competitivo. É uma infraestrutura básica para a agricultura funcionar bem.

Ilustração sobre logística e uso de fertilizantes na agricultura




