26 de agosto de 2026

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3tentos incentiva canola no RS e área deve dobrar

Agronegócio Canola 26/08/2026 07:41 Gustavo Lustosa, AgFeed agfeed.com.br

Com apoio da 3tentos e preços melhores, produtores do RS estão trocando o trigo pela canola. A área plantada deve dobrar este ano.

A estrada que liga o aeroporto de Passo Fundo à cidade de Santa Bárbara do Sul, no meio da região agrícola do Rio Grande do Sul, está cercada por campos amarelos que parecem pintados com marca-texto.

Isso porque agosto é o mês em que a canola floresce. As flores são amarelas e bem vivas, deixando a paisagem colorida.

  • A área de canola no RS deve dobrar em 2026, passando de 350 mil hectares.
  • A 3tentos é a principal responsável por esse crescimento, com planos de comprar 160 mil toneladas.
  • O preço da canola está melhor que o do trigo, e o custo de produção é menor.
  • O produtor Tales Pezzini plantou 130 hectares de canola pela primeira vez, trocando parte do trigo.
  • A fábrica da 3tentos em Ijuí foi adaptada para processar canola, com capacidade de 1,2 mil toneladas por dia.

Quem passou por esses campos em agosto de 2025 também viu flores amarelas, mas em quantidade menor. Agora, a Emater-RS estima que a área plantada dobrou em 2026, passando de 350 mil hectares.

A canola foi plantada entre abril e junho e será colhida a partir de outubro. A empresa 3tentos é a principal responsável por esse crescimento. Ela usa um modelo que junta indústria, compra de grãos e venda de insumos para tornar a canola uma nova tendência no Sul do Brasil.

A 3tentos, da família Dumoncel, fornece sementes, defensivos e fertilizantes para os produtores. Ela também compra a canola e a transforma em biodiesel na fábrica de Ijuí. Segundo Thiago Milani, diretor de commodities, a empresa espera comprar 160 mil toneladas de canola neste ano, contra cerca de 60 mil no ano passado.

Para atingir esse número, alguns fatores ajudam. O preço é o primeiro. Por muito tempo, a canola era vendida como se fosse uma 'filha' da soja, com desconto. Se a soja custava R$ 100, a canola saía por cerca de R$ 90.

Essa situação começou a mudar com o crescimento do mercado de óleos vegetais e dos biocombustíveis. 'A canola ganhou valor próprio, ligado ao preço do óleo', disse Milani.

Em 2025, segundo Leandro Carbone, diretor industrial, a saca de canola chegou a valer entre R$ 5 e R$ 10 a mais que a de soja em alguns momentos.

O produtor Tales Pezzini, da Agropecuária Corticeira, em Santa Bárbara do Sul, plantou 130 hectares de canola pela primeira vez. Ele trocou parte do trigo ou culturas de cobertura por canola.

A fazenda tem 1,1 mil hectares e cultiva soja e milho no verão. No inverno, alterna trigo, canola e outras plantas. Neste ano, a expectativa de chuva e o alto custo do trigo fizeram ele escolher canola.

'Precisávamos de uma cultura mais lucrativa. Pelo preço e pela produtividade esperada, a canola pode ser essa cultura', disse Pezzini.

O cálculo é simples: o custo de produção é de 18 a 20 sacas por hectare. Se a produtividade for de 30 sacas, o lucro pode ser de cerca de 50% sobre o que foi investido.

A 3tentos estima um custo de 14 a 15 sacas e espera produtividade de 25 a 26 sacas, parecido com o que Pezzini está vendo.

'Para ter esse lucro com trigo, eu precisaria de uma produtividade muito alta, o que é difícil com o clima chuvoso', disse Pezzini. 'Hoje, a canola dá mais lucro do que soja e trigo', completou Milani.

A vantagem não é só de preço e produtividade, mas também no manejo. Pezzini plantou canola no início de maio e vai colher em outubro. Ele precisou aplicar menos defensivos do que usaria no trigo.

Até agora, ele fez uma aplicação de herbicidas e duas de fungicidas. No trigo, seriam cinco ou mais.

O trigo até rende mais, cerca de 90 sacas por hectare, mas a qualidade pode cair se chover muito. 'Se o trigo tiver pH alto, vale mais; se não, vale menos. Além disso, o trigo tem mais problemas com doenças', explicou.

Nem tudo são flores amarelas

Mas nem tudo é perfeito. Pezzini alerta que não se deve olhar só para o lucro da canola, mas para o resultado de todo o ano. Se a canola prejudicar a soja depois, o lucro pode sumir.

Por exemplo, a canola deixa menos palha no solo e ela se decompõe rápido. Com chuvas fortes, o solo fica mais exposto à erosão antes de plantar soja.

'Se eu ganhar 10 sacas de canola, mas perder 20 de soja depois, não vale a pena. O importante é o lucro final por hectare no ano', disse.

A canola não pode ser plantada sempre no mesmo lugar, por causa de doenças como mofo-branco e canela-preta. Por isso, Pezzini quer usar canola na rotação, sem ocupar toda a área.

'Se funcionar, vamos continuar na rotação. Não vamos plantar mais de 30% da área com canola, sempre alternando', disse.

É essa oportunidade de usar parte das áreas de trigo ou pastagem que a 3tentos quer aproveitar. Hoje, o RS tem mais de 1 milhão de hectares com trigo e outras culturas de inverno.

'Mesmo com rotação, tem espaço. Acreditamos que podemos chegar a 1 milhão de hectares de canola em dois ou três anos', disse Milani.

Para a 3tentos, ainda há desafios na indústria. Em 2025, a empresa investiu R$ 60 milhões para adaptar a fábrica de Ijuí para processar canola. A canola tem mais óleo que a soja: cerca de 40% contra 20%.

A fábrica ganhou novas máquinas, como prensas que tiram parte do óleo antes da extração normal.

No primeiro ano, foi um aprendizado. Agora, o processo está mais eficiente.

A capacidade de esmagamento é de 1,2 mil toneladas por dia, podendo chegar a 1,5 mil. Este ano, devem processar canola por cinco meses, de setembro a fevereiro. No ano passado, foram dois meses.

'Se houver matéria-prima, a fábrica pode funcionar o ano todo com canola. No futuro, esperamos que os produtores alternem trigo e canola nessas áreas boas', disse Carbone.

A 3tentos é a principal fornecedora de insumos para canola, com 30% do mercado nacional. Cerca de 90% dos quase 400 mil hectares de canola do país estão no RS, e há algumas áreas no Paraná.

Ele também disse que a Refinaria Riograndense vai produzir SAF (combustível sustentável de aviação) a partir de 2029, o que pode aumentar a procura por óleos vegetais, como o de canola.

*O jornalista viajou a convite da 3tentos