12 de agosto de 2026

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Brasil discute nova tecnologia para acabar com eliminação de pintinhos machos

Agronegócio Avicultura 12/08/2026 08:04 Jéssica Amaral - DePropósito Comunicação de Causas

Um encontro nacional reuniu governo, indústria e empresas de tecnologia para debater a sexagem in ovo, uma técnica que identifica o sexo do embrião antes do nascimento, evitando o descarte de pintinhos machos. Pesquisa aponta que 79% dos brasileiros apoiam a medida e pagariam mais por esses ovos.

Uma tecnologia capaz de identificar o sexo do embrião ainda durante a incubação dos ovos, evitando a eliminação de pintinhos machos logo após o nascimento, começa a ganhar espaço no Brasil. Já utilizada em diversos países e considerada uma das principais inovações da cadeia mundial de produção de ovos, a sexagem in ovo foi tema do Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo no Brasil, realizado nesta segunda-feira (3), reunindo representantes do setor produtivo, empresas de tecnologia, instituições financeiras, organizações da sociedade civil e poder público.

A tecnologia surge como alternativa a uma das práticas mais desumanas da avicultura mundial: a eliminação de pintinhos machos. Todos os anos, bilhões de pintinhos machos são eliminados logo após o nascimento porque não possuem valor econômico para a indústria de ovos não botam ovos e não servem para a produção de carne. A trituração mecânica e a gaseificação, métodos ainda empregados em diferentes países, vêm sendo classificadas por especialistas e organizações como procedimentos de extrema crueldade, impulsionando governos, empresas e centros de pesquisa a desenvolver alternativas tecnológicas para eliminar essa prática.

  • 79% dos brasileiros comprariam ovos produzidos com sexagem in ovo.
  • 76% estão dispostos a pagar mais por esses ovos.
  • O acréscimo médio aceito seria de R$ 3,87 por dúzia.
  • 73% sentem desconforto ao saber da eliminação de pintinhos machos.
  • 86% nunca tinham ouvido falar da tecnologia, mas 72% apoiam sua adoção após conhecê-la.

Mais do que apresentar soluções tecnológicas, o encontro marcou um novo momento para o debate nacional ao aproximar os diferentes atores responsáveis por essa transição e discutir os desafios relacionados à regulamentação, financiamento, competitividade e adoção em larga escala.

Experiência internacional

A experiência internacional mostra que essa transformação já está em curso. Países como Alemanha, França e Itália incorporaram a sexagem in ovo após mudanças regulatórias que restringiram a eliminação de pintinhos machos. Atualmente, a tecnologia também avança rapidamente nos Estados Unidos, Austrália e América Latina, impulsionada tanto por legislações quanto por exigências do varejo e dos consumidores. Segundo dados de uma pesquisa apresentada durante o encontro, aproximadamente 110 milhões das cerca de 393 milhões de galinhas poedeiras da União Europeia já são provenientes da sexagem in ovo, número que continua crescendo com a expansão da tecnologia.

Mercado demonstra potencial de crescimento

Um dos destaques do encontro foi a apresentação da primeira pesquisa nacional sobre a percepção dos brasileiros em relação à sexagem in ovo, realizada pela YouGov a pedido da Innovate Animal Ag.

O levantamento revela um cenário promissor para a adoção da tecnologia no país.

Os dados reforçam uma percepção compartilhada entre especialistas presentes no encontro: o principal desafio brasileiro não é convencer os consumidores sobre a importância da tecnologia, mas ampliar o conhecimento da população sobre uma prática ainda pouco conhecida.

Tecnologia já opera em escala industrial

Empresas que lideram a inovação no cenário internacional apresentaram soluções já disponíveis comercialmente e compartilharam experiências de implementação em diferentes mercados.

A alemã Orbem apresentou seu sistema baseado em ressonância magnética associada à inteligência artificial, tecnologia que identifica o sexo dos embriões sem perfurar a casca do ovo, praticamente eliminando o risco de contaminação.

Segundo a empresa, o uso de inteligência artificial tornou possível acelerar em mais de mil vezes a aquisição e interpretação das imagens em comparação aos equipamentos tradicionais de ressonância magnética, permitindo que a tecnologia opere em escala industrial. O sistema pode ser utilizado tanto em linhagens brancas quanto vermelhas e apresenta taxa de erro inferior a 1%.

Também participou do encontro a startup alemã Omegga, que desenvolve um sistema baseado em imagens espectroscópicas captadas diretamente dentro das incubadoras, utilizando inteligência artificial para acompanhar o desenvolvimento embrionário sem necessidade de retirar os ovos do equipamento.

Ao longo do evento, especialistas reforçaram a ideia de que a sexagem in ovo resolve simultaneamente um desafio ético e uma oportunidade econômica para a cadeia produtiva, ao permitir que ovos identificados como machos sejam destinados à produção de vacinas, ingredientes para alimentação animal e outros insumos industriais.

Competitividade passa a impulsionar a adoção

Além da crescente demanda internacional por cadeias de produção mais responsáveis, participantes destacaram que grandes compradores e redes varejistas já começam a incorporar esse critério em suas políticas de abastecimento, criando novas oportunidades de mercado para produtores que adotarem a tecnologia.

"Este encontro representa um marco para o Brasil ao reunir, pela primeira vez, governo, setor produtivo, empresas de tecnologia, financiadores e sociedade civil para discutir os caminhos da implementação da sexagem in ovo. O diálogo demonstrou que há interesse e disposição para avançar de forma colaborativa, fortalecendo a inovação, a competitividade da avicultura e o bem-estar animal", afirma Liane Soares, diretora da LICA Consultoria e Ação, idealizadora e responsável pelo Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo no Brasil.

A percepção predominante foi de que o Brasil reúne capacidade técnica, escala de produção e interesse do setor para liderar essa transformação na América Latina, desde que consiga criar condições econômicas favoráveis para acelerar sua implementação.

Financiamento e políticas públicas concentram os principais desafios

Se existe consenso quanto ao potencial da tecnologia, os debates mostraram que o principal obstáculo para sua expansão ainda está relacionado aos mecanismos de financiamento.

Representantes do setor defenderam a criação de incentivos fiscais, apoio à importação de equipamentos e políticas públicas capazes de reduzir o impacto inicial dos investimentos necessários para incubatórios e produtores.

Durante o debate, representantes do Ministério da Agricultura destacaram que ainda não existe uma política nacional sobre o tema, e reconheceram que a construção de instrumentos de incentivo ainda depende das demandas que são apresentadas pela própria sociedade e pelo setor produtivo.

O consenso final

Apesar dos desafios, um dos aspectos mais relevantes do encontro foi o consenso demonstrado entre diferentes segmentos da cadeia produtiva. Ficou evidente que a eliminação de pintinhos machos representa uma prática bárbara que precisa ser abolida e a sexagem in ovo desponta como a solução mais promissora disponível atualmente.

Também concluiu-se que o avanço da tecnologia dependerá não apenas de investimentos e regulamentação, mas de um esforço conjunto para a conscientização da sociedade, ampliando o conhecimento sobre uma prática ainda pouco conhecida pelo consumidor brasileiro.

"O desafio agora não é provar que essa transformação é possível, mas construir as condições para que ela aconteça na velocidade que o Brasil precisa. Toda inovação passa por um momento em que parece cara ou distante. Depois, ela se torna o novo padrão", comenta Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil.