Uma nova tecnologia brasileira de inteligência de solos, usada por influenciadores digitais do agro, ajudou a alcançar quase 100 sacas de soja por hectare. A ferramenta identifica as características do terreno e orienta o agricultor a usar sementes, fertilizantes e máquinas de forma mais eficiente, aumentando a produtividade e diminuindo o impacto ambiental.
Durante décadas, a agricultura de precisão ajudou os produtores a enxergar melhor suas lavouras por meio de mapas de produtividade, imagens de satélite e equipamentos conectados. Agora, uma nova etapa dessa evolução começa a ganhar espaço no campo: entender o solo em profundidade para que cada metro da propriedade seja manejado de acordo com suas características naturais.
Foi esse conceito que guiou um trabalho realizado pelo Primos Agro durante a safra 2025/26. A dupla, hoje uma das principais influenciadoras digitais do agronegócio brasileiro, é formada pelos primos João ("Jão") e Eduardo ("Seu Duardo"), ambos engenheiros agrônomos e filhos de produtores rurais de Morro Agudo (SP). Eles somam mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e conquistaram grande audiência nas redes sociais ao misturar humor, linguagem técnica e situações do cotidiano do campo.
- 95% de precisão: a tecnologia acertou 95% das zonas de manejo, ajudando a distribuir melhor as plantas no campo.
- Quase 100 sacas por hectare: em algumas áreas, a produção de soja chegou perto de 100 sacas por hectare, um resultado excelente.
- Menos diesel: a ferramenta indica onde é realmente necessário usar máquinas pesadas, como a subsolagem, reduzindo o consumo de diesel e a emissão de poluentes.
- Raízes mais fortes: ao evitar a compactação do solo, as raízes crescem mais profundas e as plantas resistem melhor à seca.
- Inovação reconhecida: o projeto está ligado a pesquisas de ponta, incluindo tecnologias que ganharam destaque internacional na área de química.
A fazenda deles adotou e passou a utilizar a tecnologia de inteligência de solos para definir ambientes de produção e ajustar automaticamente a população de plantas. A solução foi desenvolvida pelo Ecossistema Terrus Agri e agora ganha ainda mais força com a integração com o Grupo Piccin.
Os resultados chamaram a atenção. Os mapas gerados pela tecnologia alcançaram aproximadamente 95% de acerto na identificação das zonas de manejo, permitindo distribuir melhor a população de plantas e explorar o potencial produtivo de cada ambiente. Em algumas áreas, a estratégia contribuiu para produtividades próximas de três dígitos em sacas de soja por hectare.
Mais do que um ganho em produtividade, a experiência demonstra uma mudança de paradigma na agricultura brasileira. "Em vez de tratar toda a lavoura de forma uniforme, o produtor passa a tomar decisões específicas para cada ambiente, aumentando a eficiência do uso de sementes, fertilizantes e demais insumos", detalha Diego Siqueira, engenheiro agrônomo, pós-doutor e diretor executivo na Quanticum, que também compõe o ecossistema.
Essa inteligência é capaz de interpretar características físicas do solo antes mesmo que os problemas apareçam na lavoura. A solução identifica quais áreas apresentam maior risco de compactação. "Quando o solo se compacta, as raízes deixam de crescer em profundidade, reduzindo a capacidade da planta de buscar água e nutrientes justamente nos momentos de maior estresse climático. O resultado é uma lavoura mais vulnerável às secas e às oscilações climáticas", explica o profissional.
O solo como orientador de decisões
A plataforma de inteligência do solo utiliza diferentes camadas de informações para identificar características, apontar riscos e indicar o potencial produtivo de cada ambiente. O produtor pode definir diferentes populações de plantas, ajustar doses de fertilizantes, realizar aplicações localizadas e até direcionar operações de preparo do solo apenas onde realmente há necessidade.
Conforme explica o especialista, conhecer profundamente o solo significa substituir decisões baseadas em médias por recomendações específicas para cada área da propriedade, tornando o manejo mais eficiente e reduzindo desperdícios. "Quase 70% do carbono presente nos ecossistemas terrestres está armazenado no solo. Cuidar dele significa produzir mais, reduzir riscos climáticos, recuperar áreas degradadas e contribuir para uma agricultura de menor impacto ambiental", reforça Siqueira.
Benefícios que vão além da produtividade
Os ganhos observados na Primos Agro também evidenciam impactos importantes do ponto de vista ambiental. Ao identificar previamente áreas com maior risco de compactação, a plataforma permite intervenções mais precisas, favorecendo o desenvolvimento das raízes e aumentando a capacidade das plantas de acessar água e nutrientes durante períodos de estiagem.
Outro benefício está na racionalização das operações mecanizadas. A subsolagem, uma das atividades de maior consumo de diesel nas propriedades rurais, pode ser realizada apenas onde os mapas indicam necessidade, reduzindo custos operacionais e as emissões de dióxido de carbono (CO2).
A inteligência do solo também está presente em outros equipamentos da Piccin, como sistemas de aplicação localizada de insumos por esteira de alta precisão e na plantadeira inteligente desenvolvida em parceria com a argentina Crucianelli. "Em um cenário de mudanças climáticas e crescente pressão por uma agricultura mais eficiente, preservar a estrutura do solo passa a ser uma estratégia capaz de reunir ganhos econômicos e ambientais", afirma o diretor.
Da fazenda para a indústria
Os resultados obtidos na Primos Agro representam uma das primeiras validações em larga escala da tecnologia. Ela também participa de iniciativas científicas voltadas à captura de carbono e ao desenvolvimento de novos materiais para a agricultura, reunindo instituições como Shell Brasil, USP, UNESP e a DeepTech MOFTech. O projeto desenvolveu uma nova geração de materiais conhecidos como MOFs (Metal-Organic Frameworks), estruturas consideradas uma das fronteiras mais promissoras da química moderna por sua capacidade de armazenar, capturar e controlar moléculas.
O tema ganhou destaque internacional ao integrar pesquisas reconhecidas pelo Prêmio Nobel de Química de 2025, reforçando que a conexão entre pesquisa, indústria e produção rural amplia as possibilidades da agricultura de precisão. Uma das perspectivas é que esses novos materiais possam ser incorporados a fertilizantes, bioinsumos e outros produtos agrícolas, permitindo aplicações extremamente localizadas e inteligentes por meio dos próprios equipamentos de precisão da Piccin.
Conforme acrescenta o especialista, mais do que fabricar implementos agrícolas, a empresa passa a integrar uma rede de inovação que conecta indústria, universidades, centros de pesquisa e empresas de energia em torno de um objetivo comum: tornar o solo um aliado no enfrentamento das mudanças climáticas por meio do Ecossistema Terrus Agri. "Ao transformar o solo em uma fonte estratégica de dados, a tecnologia permite produzir mais, utilizar melhor os recursos da propriedade e construir sistemas agrícolas mais preparados para enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas", finaliza Siqueira.

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