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Agroecologia cresce e transforma a agricultura familiar no Brasil

Agronegócio Agroecologia 27/07/2026 13:03 Jéssica Amaral - DePropósito Comunicação de Causas

Com 15 milhões de produtores rurais, a agroecologia está ganhando força e mudando a vida de agricultores familiares no Brasil. No Dia Nacional do Agricultor, histórias mostram como essa prática fortalece a produção de alimentos saudáveis, gera renda e melhora a alimentação nas escolas.

Aos 45 anos, o agricultor Rogério Negoseki, de São José dos Pinhais (PR), não se imagina fazendo outra coisa além de cultivar a terra. Filho de agricultores, ele até tentou seguir outros caminhos na juventude, mas voltou para o campo por vocação. Hoje, produz batata-doce, abóboras, morangos e está implantando novos pomares com pitaya, uva e mexerica. Mais do que manter a tradição da família, ele busca inovar para garantir o futuro da propriedade.

  • O Brasil tem cerca de 15 milhões de produtores rurais, sendo 3,9 milhões de agricultores familiares.
  • A agricultura familiar é responsável por 77% dos estabelecimentos agropecuários do país e emprega 10,1 milhões de pessoas.
  • Rogério Negoseki, do Paraná, produz alimentos sem agrotóxicos e quer que a filha continue o trabalho no campo.
  • Juciara de Lima Silva, de Pernambuco, enfrenta a falta de água no semiárido para cultivar hortaliças saudáveis.
  • O programa PNAE Agroecológico ajuda agricultores a venderem alimentos para escolas públicas, incentivando a agroecologia.

Há mais de duas décadas vivendo exclusivamente da agricultura, Rogério acompanha de perto as mudanças no campo, desde as transformações do mercado até os desafios impostos pelo clima. Mesmo diante das dificuldades, nunca pensou em abandonar a atividade que aprendeu ainda na infância ao lado da família. Agora, sonha em ver a filha seguir seus passos, ela pretende cursar Agronomia e dar continuidade ao trabalho na propriedade.

"Eu costumo dizer que quero morrer como agricultor, só não quero morrer com uma enxada na mão. Quero trabalhar na agricultura buscando tecnologias, novos manejos de produção e tudo o que agregue valor para que a gente possa sobreviver disso. Mesmo sabendo que nem sempre é valorizada e que dependemos do clima e do mercado, é isso que eu quero fazer", conta.

Para Rogério, produzir alimentos vai muito além da geração de renda. O agricultor conta que a própria família é a primeira consumidora daquilo que sai da lavoura, o que reforça sua preocupação com a qualidade da produção. Em casa, a filha cresceu colhendo frutas diretamente da estufa, sem receio de consumir alimentos recém-colhidos.

"Eu vejo minha filha comendo nosso morango sem nenhum tipo de defensivo. Ela saía de casa, ia até a estufa, colhia e comia. Eu ficava tranquilo porque sabia exatamente o que ela estava consumindo", comenta.

Para ele, a agroecologia também representa uma mudança de mentalidade no campo. Em vez de buscar apenas maior produtividade, o agricultor acredita que produzir com menos defensivos, menor custo e mais qualidade pode ser um caminho mais sustentável.

A trajetória de Rogério reflete a realidade de milhões de agricultores familiares brasileiros que, mesmo diante dos desafios impostos, seguem investindo em práticas mais agroecológicas para garantir renda, preservar o meio ambiente e produzir alimentos de qualidade. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui cerca de 15,1 milhões de produtores rurais. Destes, aproximadamente 3,9 milhões são agricultores familiares, responsáveis por 77% dos estabelecimentos agropecuários do país e por empregar cerca de 10,1 milhões de pessoas na agricultura familiar.

Entre esses agricultores está Juciara de Lima Silva, que vive uma realidade bastante diferente da de Rogério, mas compartilha do mesmo propósito de produzir alimentos saudáveis. No nordeste brasileiro, em Caruaru (PE), a agricultora de 36 anos enfrenta diariamente um dos maiores desafios do semiárido: a escassez de água. Mãe de três filhos, ela produz hortaliças sem agrotóxicos, mantém um quintal produtivo e cria galinhas caipiras, apostando na produção de alimentos saudáveis como forma de gerar renda e qualidade de vida para a comunidade.

No sítio onde vive, a rotina é marcada pelo cuidado diário com a horta e os animais. Em uma região onde a chuva é escassa, produzir exige criatividade, persistência e muito planejamento. Ainda assim, Juciara escolheu investir em uma produção totalmente livre de agrotóxicos, acreditando que alimentos saudáveis também representam mais qualidade de vida para quem produz e para quem consome.

"A maior conquista é saber que posso fazer aquilo que amo. Criar e produzir alimento saudável. Estou fazendo o que gosto e vendo isso trazer resultados para mim", diz. Ela complementa que produzir no Sertão exige persistência. "A dificuldade que encontramos é a falta de água. Precisamos comprar água para conseguir produzir. Isso nos entristece, mas nada faz com que o verdadeiro agricultor desista. Vamos dando nosso jeito, captando água para continuar plantando e levando alimento saudável para a mesa das pessoas".

Além dos desafios do clima, Juciara também enfrenta barreiras por ser mulher no campo. Para ela, a presença feminina na agricultura familiar precisa ser cada vez mais valorizada. A agricultora também chama a atenção para outro desafio, que é manter os jovens no campo. Para Juciara, investir na agricultura familiar também significa criar oportunidades para que novas gerações permaneçam produzindo alimentos. "Precisamos de políticas públicas que fortaleçam cada vez mais o agricultor, principalmente as mulheres e os jovens. Se a juventude não plantar, infelizmente vamos sofrer muito no futuro", acrescenta.

Agroecologia como caminho

Apesar da distância de quase três mil quilômetros entre Paraná e Pernambuco, Rogério e Juciara compartilham a mesma convicção de que produzir alimentos saudáveis é uma forma de cuidar das pessoas. Para ambos, ver frutas, verduras e hortaliças chegarem às escolas significa contribuir para uma alimentação mais nutritiva e para a formação de hábitos alimentares mais saudáveis desde a infância.

Os dois agricultores integram o programa PNAE Agroecológico, iniciativa conduzida nacionalmente pelo Instituto Comida do Amanhã, em correalização com a AOPA, Centro Ecológico, CETAP, Instituto Regenera, Centro Sabiá e Instituto Fome Zero (IFZ) e com o apoio do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP) no Brasil e da Fundação Rockefeller.

Lançado em 2025, o PNAE Agroecológico promove a transição para a agroecologia na agricultura familiar por meio da alimentação escolar, fortalecendo a oferta de alimentos saudáveis nas redes públicas de ensino e ampliando as oportunidades para pequenos produtores. O projeto desenvolve iniciativas-piloto em quatro territórios brasileiros, sendo Caruaru; São José dos Pinhais; um grupo formado por cidades do Pará com Barcarena, Abaetetuba, Marituba e Benevides (PA); e outro grupo com cidades do Rio Grande do Sul com Caxias do Sul, Antônio Prado, Ipê, Montenegro e Porto Alegre (RS).

Nessas localidades, junto com os gestores do município, a iniciativa estuda os sistemas alimentares, apoia a construção de soluções para facilitar a compra de alimentos agroecológicos pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e produz recomendações para aprimorar a política pública da transição agroecológica em âmbito nacional.

"Por trás de cada alimento produzido existem histórias de dedicação, resistência e um profundo compromisso com a terra. Fortalecer a agricultura familiar e a transição agroecológica é investir na saúde de quem produz, de quem consome e dos nossos territórios. Para isso, é fundamental ampliar políticas públicas que garantam condições para que essas famílias possam permanecer no campo com saúde e dignidade. O PNAE Agroecológico nasce com esse propósito: apoiar famílias agricultoras em sua transição agroecológica e fortalecer sistemas alimentares em cada território, tendo a alimentação escolar como um importante motor dessa transformação", comenta Gabriela Rodrigues, coordenadora de projetos do Instituto Comida do Amanhã.

Para o agricultor Rogério, a agroecologia representa uma oportunidade de aprender novos manejos e reduzir a dependência de insumos químicos. "O agricultor precisa entender que nem tudo precisa de muito químico para produzir. Às vezes produzir um pouco menos, com menor custo e mais valorização, é melhor. Precisamos que esse tipo de projeto incentive o produtor e mostre que esse modelo é viável", explica.

Ele também destaca o impacto que alimentos produzidos com menos agrotóxicos e outros produtos podem ter na saúde das crianças. "A gente vive da roça e come o que produz. Sabemos o valor nutricional e para a saúde que isso tem. Eu vejo minha filha comendo morango sem nenhum tipo de defensivo e fico tranquilo porque sei o que ela está consumindo. Essa qualidade precisa chegar também à merenda escolar, para que as crianças aprendam desde cedo a valorizar alimentos saudáveis".

Para Juciara, participar do PNAE Agroecológico representa a oportunidade de ampliar a comercialização e, ao mesmo tempo, contribuir para uma alimentação mais nutritiva nas escolas. "Os benefícios são saber que as crianças vão consumir um alimento saudável e que isso vai trazer mais vida. Também vamos ter uma venda garantida da produção agroecológica, o que nos incentiva a produzir cada vez mais e levar sustento para nossa casa. O município ganha, gera emprego, desenvolvimento e mais saúde para toda a comunidade", finaliza.