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Tecnologia inteligente mostra quais bois comem menos e rendem mais carne

Agronegócio Eficiência 23/07/2026 07:55 Vitória Rosendo, Canal Rural canalrural.com.br

Um novo sistema usa cochos equipados com balança e chip para monitorar a alimentação de cada boi. Assim, os criadores podem descobrir quais animais ganham peso comendo menos, o que ajuda a reduzir custos, melhorar o rebanho e tornar a produção de carne mais sustentável.

A busca por uma pecuária mais eficiente está cada vez mais ligada ao uso de tecnologias que medem o desempenho de cada animal. Uma dessas ferramentas ajuda a identificar quais bois conseguem ganhar peso comendo menos. Essa informação é muito importante para reduzir os custos da produção, guiar os programas de melhoramento genético e até diminuir a poluição causada pela atividade.

O sistema funciona com um cocho equipado com uma balança e uma antena eletrônica. Cada animal tem um chip de identificação na orelha. Quando o boi se aproxima para comer, o equipamento registra quem é e mede, na hora, a quantidade de comida que ele está consumindo.

  • O sistema conta quantas vezes cada boi vai ao cocho por dia, que pode ser de 20 a 30 vezes.
  • A principal medida usada é o Consumo Alimentar Residual (CAR), que mostra quais animais são mais eficientes.
  • Animais mais calmos gastam menos energia com estresse e se movimentam menos, o que ajuda a serem mais eficientes.
  • Bois que depositam menos gordura e usam os nutrientes para crescer os músculos são mais produtivos.
  • A tecnologia também pode ajudar a escolher animais que se adaptam melhor ao calor, algo importante com as mudanças climáticas.

"É um cocho que, na verdade, fica montado em cima de uma balança. A ideia é que a gente consiga saber exatamente qual animal está comendo naquele determinado momento e o quanto ele está comendo naquela visita que fez ao cocho", explica o pesquisador da Embrapa de Corte, Rodrigo Costa Gomes.

Ao longo de aproximadamente 50 dias, o sistema acompanha todas as visitas dos animais ao cocho, que podem chegar a 20 ou 30 vezes por dia. Com isso, os pesquisadores conseguem calcular o consumo médio individual e comparar o desempenho entre os bovinos.

Principal métrica

A principal métrica obtida pela tecnologia é o chamado Consumo Alimentar Residual (CAR), um indicador usado para medir a eficiência alimentar dos animais. Na prática, ele mostra quais bois conseguem ter um bom desempenho produtivo usando menos comida do que o esperado.

Os pesquisadores também analisam características fundamentais para a pecuária, como fertilidade e qualidade da carcaça.

Os touros avaliados, por exemplo, são depois enviados para centrais de inseminação ou propriedades rurais. Por isso, além de serem eficientes no aproveitamento da dieta, precisam ter boa capacidade reprodutiva e potencial genético para passar características desejáveis para os filhos, como maior rendimento de carne e melhor desenvolvimento muscular.

O que torna um animal mais eficiente

Segundo Gomes, não existe um único motivo para a eficiência alimentar. Essa característica é resultado da combinação de vários aspectos genéticos e físicos do animal.

Animais com temperamento mais calmo, por exemplo, tendem a gastar menos energia com estresse e movimentação. Outros conseguem digerir e aproveitar melhor os nutrientes da comida.

Além disso, bois mais eficientes normalmente depositam menos gordura no corpo. Isso porque a formação de gordura exige maior consumo de energia e alimento. Dessa forma, animais que direcionam melhor os nutrientes para o crescimento muscular costumam ter um desempenho produtivo melhor.

Importância cresce nos sistemas intensivos

A eficiência alimentar ganha ainda mais importância com a intensificação da pecuária brasileira. Sistemas como confinamento e terminação intensiva a pasto usam dietas mais balanceadas e maior quantidade de alimentos concentrados, que aumentam os custos de produção.

Nesse cenário, selecionar animais capazes de transformar melhor o alimento em ganho de peso reduz desperdícios e melhora a rentabilidade da atividade.

Adaptação ao calor

Pesquisas recentes indicam que animais mais eficientes podem ser também mais adaptados às condições climáticas.

Estudos em andamento investigam se bois com melhor eficiência alimentar aguentam melhor o calor e o estresse térmico. Isso é considerado uma característica estratégica diante do avanço das mudanças climáticas e da expansão da pecuária para regiões mais quentes e úmidas do país.

Caso essa relação seja confirmada, o melhoramento genético poderá ajudar, ao mesmo tempo, a aumentar a produtividade e tornar os rebanhos mais fortes para enfrentar os desafios do ambiente.

Fase de cria concentra maior impacto ambiental

Os estudos também mostram que o maior desafio para reduzir a poluição da pecuária está na fase de cria.

Segundo os pesquisadores, entre 70% e 80% da pegada de carbono da carne bovina brasileira está concentrada nessa etapa, quando as vacas matrizes ficam no sistema produzindo os bezerros. Como os animais adultos consomem mais alimento, também emitem maior quantidade de metano durante a digestão.

Por isso, estratégias como aumento da fertilidade, melhoria da saúde dos bezerros, redução da mortalidade e avanço do melhoramento genético podem gerar impactos importantes tanto na produtividade quanto na redução das emissões de gases que causam o efeito estufa.

Para os pesquisadores, identificar e selecionar bois mais eficientes representa um dos caminhos para produzir mais carne usando menos recursos, aumentando a competitividade da pecuária brasileira e contribuindo para sistemas de produção mais sustentáveis.