18 de julho de 2026

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Startup usa inteligência artificial para proteger abelhas nas plantações

Agronegócio Tecnologia 18/07/2026 10:49 Italo Bertão Filho - AgFeed agfeed.com.br

Uma startup de Santa Catarina criou uma plataforma com inteligência artificial que avisa apicultores sobre pulverizações de agrotóxicos, ajudando a reduzir a morte de abelhas e melhorando a produtividade das lavouras.

Como aumentar a produtividade das lavouras sem colocar em risco um dos seus principais aliados naturais, as abelhas A inteligência artificial pode ser (parte) da resposta.

Esse é o argumento da AgSafe, uma startup criada em 2020 em Florianópolis (SC) e que desenvolveu uma plataforma baseada em inteligência artificial proprietária para antecipar pulverizações no campo, identificar áreas sensíveis e alertar apicultores próximos antes das aplicações.

  • Mais de 770 milhões de abelhas morreram no Brasil entre 2020 e 2024, segundo a Ufersa.
  • As abelhas geram um serviço de polinização estimado em R$ 43 bilhões por ano.
  • A plataforma Coex.AI usa IA para prever riscos e notificar apicultores.
  • Em testes, lavouras próximas a apiários preservados tiveram maior produtividade.
  • Startup opera com recursos próprios e mira expansão global.

"O maior problema nem sempre é a aplicação em si, mas a falta de informação no momento certo. Quando aumentamos a previsibilidade das operações e facilitamos essa comunicação, reduzimos riscos para os polinizadores sem comprometer a eficiência da produção", afirma Maicon Romera, CEO e cofundador da AgSafe.

O problema não é pequeno. Levantamento da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa) estima que cerca de 770 milhões de abelhas morreram no Brasil em apenas quatro anos, montante que pode ser até maior. Isso acontece porque boa parte dos casos não chega aos órgãos oficiais - pesquisadores acreditam que esse número possa superar 1,5 bilhão de insetos.

Há um componente econômico relevante. As abelhas são responsáveis pela polinização de dezenas de culturas agrícolas e sustentam um serviço ecossistêmico estimado em R$ 43 bilhões por ano no país. Em culturas como soja, café, maçã, laranja e diversas frutas, a presença dos polinizadores influencia diretamente na produtividade.

De olho em mitigar o problema, a agtech criou uma ferramenta digital chamada Coex.AI, que funciona como uma plataforma de gestão das pulverizações. O sistema integra informações de pulverizações agrícolas, localização de apiários, condições operacionais e comunicação entre os envolvidos, permitindo que agricultores, prestadores de serviços e apicultores tenham maior previsibilidade sobre as atividades realizadas na propriedade. Todos esses dados são integrados a partir de uma inteligência artificial proprietária, segundo Romera.

Como funciona o Coex.AI

A plataforma foi batizada de "Coex" não à toa, segundo Maicon Romera. "Simboliza que existe a possibilidade de coexistência das duas práticas. O sojicultor está aplicando o defensivo para garantir a sua produtividade. E o apicultor também quer garantir a produtividade dele. Na prática, a ferramenta quer ser uma solução para as duas pontas", afirma.

O Coex.AI cruza informações sobre o defensivo que será utilizado, as condições meteorológicas e a localização dos apiários cadastrados. Se houver risco para as colmeias, o apicultor recebe uma notificação antecipada e pode adotar medidas preventivas, como o fechamento temporário das caixas durante o período da pulverização. "Se o apicultor recebe a notificação de que, por exemplo, às 9h de amanhã, uma aplicação está programada, ele tem o poder de simplesmente fechar a colmeia e evitar a mortandade de abelhas", explica Romera.

Ao mesmo tempo, o agricultor que vai aplicar seu produto recebe recomendações sobre condições de vento, clima e demais parâmetros técnicos que reduzem as chances de deriva, termo que designa quando defensivo é levado para fora da área de aplicação. Depois da operação, todo o processo fica registrado na plataforma, formando um histórico de rastreabilidade das aplicações.

Resultados promissores

Hoje, a empresa mantém projetos-piloto em diferentes estágios integrando apicultores e produtores de soja no Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul, trabalhando em parceria com indústria do segmento de insumos, agroindústria e usina de cana-de-açúcar, cujos nomes não podem ser divulgados por questões contratuais, segundo Romera.

Os primeiros projetos conduzidos pela empresa no Sul do Brasil têm tido resultados positivos. A agtech afirma que lavouras de soja localizadas próximas a apiários preservados registraram incremento de produtividade, enquanto as colmeias instaladas nessas regiões apresentaram aumento na produção de mel durante o período de florada da cultura, ainda que a AgSafe não tenha uma estimativa exata dos ganhos.

Desafios e próximos passos

Apesar da possibilidade de incremento de produtividade, ainda é um desafio bastante relevante para a AgSafe convencer os produtores a inserirem, na plataforma da AgSafe, seus dados de pulverização. "É um desafio você convencer um produtor a entrar no projeto e deixar claro que não é uma fiscalização paralela", diz. "Quando a gente fala que a gente vai fazer rastreabilidade, comunicar as duas pontas, parece que isso é uma fiscalização paralela, e não é." Romera ressalta ainda que quem topa fazer um projeto com a AgSafe já está disposto a seguir as regras da empresa.

O Coex.AI, no entanto, é apenas uma das ferramentas desenvolvidas pela empresa. A AgSafe também investe em soluções de inteligência artificial voltadas ao treinamento de equipes agrícolas, disseminação de boas práticas agrícolas e de monitoramento da qualidade do solo.

Origem da startup

A agtech surgiu em 2020, depois que Maicon Romera e seu sócio, Antonio Loures, COO da AgSafe, se conheceram ao cursarem o MBA em Agronegócio da Esalq-USP. Com negócios na área de comércio exterior, Romera também foi estagiário e, posteriormente, funcionário do Ministério da Agricultura na década passada. Já Loures é administrador e também mantém negócios em outras startups.

Juntos, eles passaram a investigar casos recorrentes de deriva. Romera coincidentemente residia na época em Florianópolis (SC), próximo da Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores de Santa Catarina, e num certo dia resolveu bater na porta dos melicultores e também da Secretaria de Agricultura local para averiguar. "Eu fui a campo para entender como funcionam esses dois lados, quem está produzindo e aplicando o defensivo, e do outro lado, quem está sofrendo ali com a perda das abelhas", conta Romera.

A conclusão foi que boa parte dos conflitos tinha origem na falta de comunicação entre os diferentes agentes do campo. "A gente percebeu que estava lidando com um problema sistêmico. Muitos conflitos aconteciam não por irresponsabilidade, mas porque faltava informação compartilhada entre quem produzia e quem estava sujeito aos impactos da aplicação", afirma Romera.

Até aqui, a agtech tem operado com recursos próprios. Romera descarta, no momento, fazer uma rodada de investimentos. "Nem vejo necessidade para fazermos isso agora", diz.

Expansão internacional

Na liderança da AgSafe, Romera tem feito do mundo seu escritório. Em busca de novos mercados e parceiros para validar as tecnologias da startup e de outra empresa de comércio exterior, o executivo percorre diferentes países. Romera conversou com o AgFeed falando de Singapura, onde mora atualmente. "Já viajei para mais de 50 países e morei em mais de 13", conta.

Recentemente, passou por Japão e China em busca de novas tecnologias e diz ter identificado, no mercado japonês, uma inovação que pretende adaptar ao Brasil, embora ainda sem revelar detalhes. Para o executivo, o País ocupa posição central na estratégia da startup por reunir condições que permitem testar as soluções em ambiente real e acelerar seu desenvolvimento. "A gente usa o Brasil hoje como um grande laboratório de tecnologias. Muitas coisas que eu vejo fora do Brasil, levo para testarmos a tecnologia", diz.