A China precisa encontrar um equilíbrio entre aumentar sua própria produção de alimentos e continuar comprando de outros países para garantir que não falte comida para sua população.
No final de abril, uma consultoria inglesa chamada Systemiq publicou um relatório que mostrava uma visão otimista sobre a capacidade da China de produzir seus próprios alimentos e depender menos de outros países. O estudo se baseou no 15º Plano Quinquenal, que é um plano do governo chinês para o desenvolvimento do país.
Parte da imprensa e de profissionais ligados ao meio ambiente trataram essa ideia como se fosse uma verdade já confirmada, que mudaria tudo para o agronegócio brasileiro em pouco tempo. Alguns até disseram que isso era uma novidade que poderia atrapalhar o crescimento da produção de alimentos no Brasil.
- A China tem apenas 8% das terras para plantar do mundo, mas 20% da população global.
- O país possui só 6% da água doce do planeta, o que dificulta aumentar a produção de comida.
- Mesmo com tecnologia, a China não consegue produzir toda a carne que consome, especialmente a bovina.
- O governo chinês quer depender menos de outros países, mas não vai parar de importar alimentos.
- O Brasil continuará sendo um grande parceiro da China, mas terá que atender a regras mais rigorosas.
Na verdade, esse assunto não é novo. No 14º Plano Quinquenal, a China já estava preocupada em garantir sua comida. Mesmo antes disso, os chineses sempre falaram em reduzir a dependência de outros países para produtos importantes.
O relatório da Systemiq acreditava que a China conseguiria fazer na agricultura o mesmo que fez em outros setores, como carros elétricos e painéis solares, onde se tornou líder mundial. O estudo também apostava que as pessoas passariam a comer mais produtos que substituem a carne, como proteínas de plantas.
Porém, os autores do relatório não levaram em conta que a agricultura é diferente da indústria. No campo, o tempo de aprender e aplicar novas tecnologias é mais lento, porque depende de fatores como clima, solo e biologia dos animais.
Para ter uma visão mais equilibrada, outro estudo foi feito pelo Insper, coordenado pelo professor Marcos Jank. Esse relatório foi mais técnico e focou na realidade da produção rural. A conclusão principal foi dividida em cinco pontos importantes:
1. Ser autossuficiente em tudo é impossível por causa da falta de terra, água e do aumento do consumo. 2. A China continuará comprando muita comida de outros países, especialmente carnes e grãos. 3. O objetivo do governo chinês é ser mais forte e preparado, não acabar com o comércio internacional. 4. Garantir a comida virou uma questão de segurança nacional e de disputa política entre países. 5. O Brasil continuará sendo um parceiro importante, mas a China será mais exigente, usará mais tecnologia e buscará outros fornecedores.
O que a China realmente quer é não ficar vulnerável a crises no abastecimento de produtos essenciais. Ela aceita continuar importando quando for mais barato e fizer sentido para seus planos. É importante saber a diferença entre ser autossuficiente (produzir tudo) e ter segurança alimentar (não passar fome).
O aumento da produtividade no campo chinês também não é novidade. Há décadas, o país investe em melhorar a eficiência, principalmente na criação de porcos, que é feita em sistemas fechados e modernos.
Um estudo da Athenagro mostrou o quanto a China poderia produzir se tivesse a mesma eficiência de outros países. Por exemplo, se a China criasse porcos com a mesma produtividade da Alemanha, a produção de carne suína pularia de 59,5 milhões de toneladas para 87,9 milhões de toneladas por ano.
Na avicultura, se a China usasse a mesma tecnologia do Brasil, a produção de frango passaria de 17,3 milhões para 53,47 milhões de toneladas. Já na carne bovina, o aumento seria menor, porque os rebanhos da China e dos Estados Unidos têm o mesmo tamanho. Com a eficiência americana, a China produziria 11,8 milhões de toneladas, contra 7,6 milhões atuais.
É importante lembrar que, para aumentar a produção de carne, a China precisará de mais grãos para alimentar os animais. Isso vale tanto para sistemas tradicionais quanto para fazendas verticais, que são prédios onde os animais são criados. A necessidade de comida para os bichos será sempre a mesma.
Por isso, a China terá que decidir em quais tipos de carne investir mais para ser autossuficiente e em quais continuará comprando de fora. O frango é a carne com maior potencial de crescimento, mas a China já exporta mais frango do que importa. A pergunta é: vale a pena aumentar a produção de frango para consumo interno ou é melhor continuar exportando e investir em carne suína, que é a preferida dos chineses
Manter uma alta capacidade de produzir frango parece uma boa ideia, tanto para vender para outros países quanto para garantir comida para a população em caso de emergência. Mesmo que a produção cresça, o consumo de carne na China também deve aumentar, porque a população está ficando mais rica e morando mais nas cidades.
Em 2025, a China tinha 1,15 hectare de terra para cada pessoa que vive no campo. No Brasil, esse número é de 9,8 hectares por pessoa. Isso mostra como a terra é mais escassa na China. O consumo de carne por pessoa na China é de 62 kg por ano, 40% menor que no Brasil. A tendência é que esse consumo aumente.
Como o estudo do Insper lembrou, a China tem 20% da população mundial, mas só 8% das terras para plantar e 6% da água doce. Por enquanto, o mais provável é que a China diminua o ritmo de crescimento das importações, mas não pare de comprar. O tipo de produto importado também pode mudar, de acordo com os investimentos que o país fizer.
Nos próximos anos, a China continuará sendo o principal mercado para o agro brasileiro, especialmente para a carne bovina. Porém, os chineses serão mais exigentes com a qualidade e a origem dos produtos. Não se deve subestimar a capacidade da China de produzir mais, mas também não se deve exagerar nessa possibilidade.

(Foto: Rally da Pecuária)


