30 de junho de 2026

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O perigo de exagerar sobre o clima para quem decide no campo

Agronegócio Clima 30/06/2026 10:39 Rodolfo Armando A. Pereira, especialista em agrometeorologia da Picsel

Entenda como o alarmismo sobre fenômenos climáticos, como o 'Super El Niño', pode atrapalhar as decisões importantes dos agricultores, que precisam de informações precisas para planejar o plantio, comprar insumos e gerenciar riscos. O artigo explica por que é melhor ter cuidado com previsões muito extremas e focar em estratégias de adaptação.

Com o clima mudando cada vez mais, as previsões do tempo e do clima estão influenciando diretamente as decisões dos agricultores. Planejar a safra, comprar sementes e adubos, controlar as finanças, pedir empréstimos e vender a produção dependem muito de saber como será o clima. Por isso, é muito importante que as informações sobre fenômenos climáticos sejam passadas de forma correta para o campo. A discussão recente sobre um possível 'Super El Niño' para a safra de 2026/2027 mostra exatamente os perigos de transformar previsões em certezas.

  • As previsões climáticas para o segundo semestre de 2026 indicam um El Niño, mas ainda não dá para afirmar que será um 'Super El Niño'.
  • A NOAA, agência de meteorologia dos EUA, dá apenas 36% de chance para um evento tão forte entre novembro e janeiro.
  • Previsões para horizontes longos, como o final de 2026, têm mais incerteza devido a limitações dos modelos climáticos.
  • Transformar automaticamente um fenômeno global em impactos locais é um erro, pois o efeito na lavoura depende do solo, do manejo e da região.
  • Especialistas recomendam focar em mitigação de riscos e adaptação, como o uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) da Embrapa, em vez de alarmismo.

Existem evidências de que um El Niño pode se formar no segundo semestre de 2026. Mas é muito cedo para dizer que o Brasil vai sofrer um 'Super El Niño'. Esse nome é dado quando a temperatura do oceano Pacífico fica mais de 2°C acima do normal. Alguns modelos indicam isso, mas os próprios centros de meteorologia internacionais ainda estão cheios de dúvidas. A NOAA, por exemplo, diz que a chance de um evento tão forte é de cerca de 36% entre novembro e janeiro.

Outro ponto técnico que quase ninguém comenta é que as previsões para períodos muito longos são menos confiáveis. Os cenários mais fortes para o fenômeno estão exatamente no final do ano, que é um prazo de previsão muito longo, onde a incerteza aumenta. Existe ainda um problema chamado 'Barreira de Previsibilidade da Primavera', que faz com que as previsões feitas no outono para o hemisfério sul sejam menos confiáveis. Ignorar isso cria uma falsa sensação de precisão que a própria ciência não garante.

Um erro comum é achar que um fenômeno global, como o El Niño, vai causar os mesmos efeitos em toda a produção agrícola. Na prática, o que acontece no campo depende de uma combinação de fatores, como a quantidade de chuva em cada região, o tipo de solo e as técnicas de plantio. Embora o El Niño traga mais chuva para o Sul do Brasil e menos chuva para o Norte e Nordeste, ainda não há estudos científicos que garantam previsões como 'chuvas catastróficas' ou 'seca histórica' para a próxima safra.

A conversa mais importante para o agronegócio deveria ser sobre como reduzir riscos e se adaptar. Pesquisadores da Embrapa recomendam que, se houver muita chuva, o agricultor deve manter a palhada (restos de plantas) no solo e evitar mexer na terra para não causar erosão. Se chover menos, a cobertura vegetal ajuda a guardar a umidade. Plantar antes espécies com raízes profundas também ajuda a infiltrar água no solo.

Escolher variedades de plantas que aguentem melhor o excesso ou a falta de água também deixa as lavouras mais fortes. Além disso, plantar em épocas diferentes reduz o risco de todas as áreas serem afetadas ao mesmo tempo por um clima ruim. Seguir as recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) continua sendo uma das melhores ferramentas para o agricultor decidir o que fazer, não importa se vem El Niño ou La Niña.

Com eventos climáticos extremos ganhando importância, a qualidade da informação sobre o clima tem um impacto direto na capacidade do setor produtivo de se adaptar. O agro brasileiro sempre conviveu com um clima muito variável. O desafio agora é melhorar a capacidade de interpretar os riscos com mais precisão, sem cair no negacionismo (achar que nada vai acontecer) nem no alarmismo (achar que tudo vai ser catastrófico). Em um mundo com cada vez mais extremos climáticos, dar uma informação responsável deixou de ser só comunicação científica e passou a ser parte essencial da estratégia para manter a produção.