25 de junho de 2026

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O preço da pressa: Quando falta planejamento, o agro sai perdendo

Agronegócio Planejamento 25/06/2026 08:21 Leandro Weber Viegas, CEO da Sell Agro

O agronegócio brasileiro bate recordes de produção, mas ainda sofre com um problema escondido: a falta de planejamento na hora de comprar insumos. Decisões de última hora aumentam os custos e estressam toda a cadeia produtiva, do produtor ao transporte. Entenda por que a pressa sai cara e como a previsibilidade pode ser a chave para um setor mais eficiente e lucrativo.

Quando se fala nos desafios do agronegócio brasileiro, é comum culpar a infraestrutura de estradas e portos. Mas um dos maiores problemas pode estar em algo menos visível e igualmente importante: o tempo. Calendários apertados, decisões de última hora e a falta de planejamento continuam atrapalhando a eficiência de toda a cadeia produtiva.

  • O agronegócio brasileiro representa cerca de um quarto do PIB do país.
  • O Brasil produz mais de 300 milhões de toneladas de grãos por ano.
  • Decisões de última hora na compra de insumos geram um custo extra chamado 'custo da urgência'.
  • A indústria, o transporte e o produtor rural perdem dinheiro com a falta de planejamento.
  • Antecipar as compras pode reduzir custos e melhorar a eficiência de toda a safra.

Existe uma situação que se repete ano após ano no agronegócio. Conforme chegamos perto de agosto, setembro e outubro, toda a cadeia parece entrar em uma corrida contra o tempo. Os telefones não param de tocar, compradores começam a agir com urgência, as fábricas concentram a produção em janelas cada vez mais curtas, as transportadoras trabalham no limite e as equipes de vendas são pressionadas a resolver, em poucas semanas, demandas que poderiam ter sido planejadas ao longo de meses.

O resultado é um ambiente de decisões apressadas, maior pressão sobre os custos e uma perda de eficiência que afeta todos os envolvidos. Diante disso, uma pergunta me acompanha há quase vinte anos trabalhando no setor agrícola: se sabemos que a safra vai acontecer, por que ainda agimos como se ela fosse uma surpresa Vamos tentar entender.

O setor alcançou um nível de profissionalização incrível nas últimas décadas. Hoje, ele representa aproximadamente um quarto do PIB nacional, movimenta centenas de bilhões em exportações e sustenta uma das cadeias produtivas mais complexas e eficientes do mundo. Produzimos safras que ultrapassam 300 milhões de toneladas de grãos e usamos tecnologia em praticamente todas as etapas do processo.

Por isso, é estranho que ainda exista uma contradição importante. Quem vive no campo sabe que quase nada acontece por improviso. O produtor rural planeja a compra de sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, equipe, financiamento e estrutura operacional com antecedência, porque entende que a produtividade depende diretamente da previsibilidade.

Decisões de última hora geram riscos

No entanto, quando falamos de produtos especiais para a agricultura, como adjuvantes e tecnologias de aplicação, que são fundamentais para a eficiência, ainda vemos uma cultura de decisões tardias. Muitas negociações importantes começam justamente quando os produtos já deveriam estar a caminho ou, em alguns casos, já armazenados na propriedade.

Na Sell Agro, acompanhando diariamente produtores e parceiros em diferentes regiões do país, percebemos um comportamento que se repete: uma parte importante das decisões estratégicas continua sendo tomada muito perto do início das operações da safra. Esse movimento gera consequências que toda a cadeia conhece bem.

Quando a demanda se acumula em períodos curtos, a indústria precisa aumentar a produção, a logística perde eficiência, o transporte fica mais caro e difícil de encontrar, e o nível de risco cresce para todos. E o mais curioso é que ninguém ganha com esse modelo. A indústria perde em planejamento, o distribuidor trabalha sob pressão, a operação logística enfrenta gargalos, e o produtor, que deveria ser o maior beneficiado, acaba absorvendo impactos que poderiam ser evitados. Existe um custo que raramente aparece nas planilhas: o custo da urgência.

Esperar não é uma boa estratégia

Em muitos casos, comprar de última hora é visto como uma estratégia, seja para tentar conseguir um preço melhor ou aproveitar oportunidades. Mas a experiência mostra que a previsibilidade também tem valor econômico. Economizar alguns centavos em uma negociação perde o sentido quando existe risco de atrasos, falta de produtos ou aumento de custos justamente no momento em que a aplicação precisa ser feita.

No campo, poucos dias podem fazer uma grande diferença, porque uma operação feita fora do tempo certo pode gerar impactos maiores do que qualquer economia em uma compra tardia. Acredito que a previsibilidade deixou de ser apenas uma questão de organização e se tornou uma vantagem competitiva. Afinal, quando existe planejamento, toda a cadeia trabalha de forma mais eficiente.

No final, quem mais se beneficia é a parte mais importante: o produtor. O agronegócio evoluiu de forma extraordinária nas últimas décadas e talvez tenha chegado a hora de a cultura de compra acompanhar esse mesmo ritmo de transformação. Na minha opinião, agosto, setembro e outubro deveriam ser meses para receber e organizar os estoques, e não para começar a tomar decisões estratégicas que vão definir o sucesso da safra.

O agro moderno foi construído sobre eficiência, e ela dificilmente nasce da urgência. Ela nasce do planejamento, da previsibilidade e da capacidade de olhar alguns meses à frente. Porque, no final, a melhor negociação não é necessariamente a feita de última hora, mas aquela que permite que toda a cadeia funcione em harmonia e dê ao produtor a tranquilidade para fazer o que ele sabe fazer de melhor: produzir.