O bioma da Caatinga, que existe só no Brasil, tem microrganismos especiais que sobrevivem ao calor e à seca. Uma expedição científica está coletando esses bichinhos microscópicos para criar produtos que ajudem as plantações a crescerem melhor em lugares difíceis, como áreas com pouca água e solo pobre.
As temperaturas facilmente ultrapassam os 40°C. A radiação solar é intensa. A umidade do ar é baixa. E os solos ficam meses sem chuva.
Condições que limitam a agricultura convencional no semiárido brasileiro são justamente as que tornam a Caatinga, e seus microorganismos, como únicos do ponto de vista biotecnológico.
- A Caatinga é o único bioma que existe apenas no Brasil e é pouco estudado pela ciência.
- Os microrganismos da Caatinga podem 'dormir' por meses sem água e 'acordar' quando chove.
- Cientistas querem usar esses micróbios para criar biofertilizantes que ajudem plantas a crescer em solo pobre e seco.
- A expedição já coletou 98 amostras e planeja chegar a 200 amostras únicas do bioma.
- A empresa responsável quer ter mais de 2 mil tipos de microrganismos de todo o Brasil até o final de 2026.
"Os microrganismos que sobrevivem neste ambiente, quente e seco na maior parte do ano, desenvolvem capacidade de adaptação rara como: produção de compostos protetores, eficiência metabólica mesmo em condições de escassez extrema e capacidade de entrar em dormência por meses, voltando à atividade com as primeiras chuvas", explica Patrícia Mendes, diretora de desenvolvimento de negócios e estratégia comercial da Apoena Agro.
É nesse cenário que a ciência começa a buscar uma nova geração de bioinsumos agrícolas. O interesse cresce à medida que o setor produtivo busca alternativas para culturas em regiões com baixa disponibilidade hídrica e solos pobres em nutrientes.
A expedição, organizada pela empresa Apoena Agro (divisão agrícola da Apoena Biotech) visitou a Caatinga em busca desses microorganimos. A iniciativa busca unir biodiversidade brasileira, ciência e agricultura sustentável em um momento em que o setor busca alternativas para produção de alimentos em cenários climáticos cada vez mais desafiadores.
Como a ciência transforma a natureza em soluções para o campo
A proposta é transformar adaptações naturais do único bioma exclusivamente brasileiro em soluções sustentáveis para o agro. "Esperamos, por meio dessa expedição, desenvolver especialmente bioestimulantes e biofertilizantes para regiões onde a seca e a baixa fertilidade do solo são os principais desafios da produção agrícola", explica Patrícia Mendes.
O trabalho de coleta dos microrganismos
A bioprospecção consiste na busca por microrganismos em ambientes naturais, envolvendo a coleta, o isolamento, a caracterização e o mapeamento das suas funções. Com isso, desenvolvem-se novos produtos com aplicações diversas, como os bioinsumos.
Foram coletadas 98 amostras durante a estação chuvosa, entre janeiro e março. Uma nova visita será feita de junho a dezembro, para a coleta de amostras na estação da seca. E a estimativa é coletar e catalogar 200 amostras exclusivas do bioma.
"A alternância de climas, combinada com solos pobres e temperaturas extremas, forçou os microrganismos locais a desenvolver mecanismos de sobrevivência incomuns: alguns conseguem entrar em estado de dormência durante meses e voltar à atividade assim que a umidade retorna, enquanto outros decompõem matéria orgânica de difícil degradação ou contribuem para a fixação de nitrogênio no solo", completa a diretora.
Autorização e cuidado com a natureza
Segundo a Apoena todo o processo é feito com a autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de acordo com a legislação brasileira de acesso à biodiversidade. Além do solo a coleta é feita ao redor das raízes, tecidos internos das plantas nativas e fendas de rochas.
O futuro da pesquisa e o impacto para o agro
O interesse biotecnológico está nas cepas capazes de induzir resistência à seca nas plantas hospedeiras, alternar fontes de energia em condições de escassez e produzir compostos de proteção celular raramente encontrados em outros biomas. Os estudos serão compartilhados com a comunidade científica para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade nacional.
A iniciativa representa a expansão de uma plataforma de pesquisa que já explorou ambientes como a Amazônia e o arquipélago de Fernando de Noronha. Com a incorporação das cepas da Caatinga, o banco da Apoena Agro deve superar 1200 microrganismos.
Até o final de 2026, a empresa planeja ampliar ainda mais o acervo, chegando a mais de 2 mil microrganismos, com novas expedições em outros biomas brasileiros. "O Brasil abriga mais de 20% das espécies conhecidas no planeta, e boa parte desse patrimônio ainda é cientificamente inexplorado. Desenvolver bioinsumos a partir dessa biodiversidade é uma forma de transformar a riqueza biológica do país em soluções reais para um agronegócio mais resiliente, produtivo e em equilíbrio com o meio ambiente", conclui Patrícia Mendes.

Bioprospecção na Caatinga será feita em duas etapas, com coletas nas estações de chuva e de seca foto: Apoena Agro


