A pinha, também conhecida como fruta-do-conde, é uma fruta que está ajudando agricultores indianos a terem lucro mesmo em regiões com pouca água. Ela sobrevive em solos pobres, precisa de pouca irrigação e está sendo vendida para outros países, como Estados Unidos e Europa.
Ashoka Shivareddy vem de uma família de agricultores, mas era difícil ganhar a vida na região de Kolar, no sul da Índia, que sofre com secas.
A região recebe apenas 60 a 70 centímetros de chuva por ano, e os agricultores cavam poços de até 400 metros de profundidade. A maior parte do dinheiro deles vai para buscar água, diz ele.
- A pinha cresce em lugares secos e precisa de pouca água
- Existem variedades novas que duram mais tempo e têm menos sementes
- As sementes da pinha são tóxicas e não devem ser consumidas
- A fruta está sendo exportada para os Estados Unidos, Europa e países árabes
- Cientistas estão criando formas de usar a polpa em sorvetes e milk-shakes
Depois de muito prejuízo, a família desistiu da lavoura e, em 2005, se mudou para a cidade de Bengaluru, onde abriu uma quitanda.
Shivareddy se tornou engenheiro de software de inteligência artificial, mas nunca perdeu a paixão pela agricultura.
Em 2018, ele decidiu reativar a fazenda da família, mas com uma abordagem mais científica.
Eu estava procurando uma cultura que sobrevivesse com pouca água, crescesse com a chuva e não dependesse tanto de agrotóxicos, explica ele.
A pinha pareceu uma boa opção. É uma fruta cheia de caroços, do tamanho de um abacate grande, e sua polpa cremosa e doce lembra um pouco o creme de baunilha.
As árvores de pinha crescem naturalmente na região de Shivareddy, e os moradores colhiam a fruta para vender no mercado. Isso pareceu promissor para ele.
Para aumentar a produção, ele plantou as árvores mais próximas umas das outras do que o normal.
Shivareddy também escolheu três tipos diferentes de pinha, cada um com vantagens diferentes. A estratégia parece estar dando certo.
No ano passado, produzi cerca de 20 toneladas. Este ano, deve chegar a 25 toneladas. Há uma enorme demanda por pinha na Índia e no exterior, diz ele.
Desafios no cultivo
Apesar de a pinha sobreviver em lugares secos, existem desafios para cultivá-la.
A variedade tradicional, chamada Balangar, estraga muito rápido, em apenas três ou quatro dias, o que limita as opções de venda. Ela também tem muitas sementes, o que não agrada os consumidores.
As sementes são tóxicas, especialmente quando esmagadas, e devem ser evitadas. A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar também tem dúvidas sobre a segurança de suplementos feitos com pinha.
As variedades tradicionais têm um sabor excelente, mas têm pouca polpa, muitas sementes e duram muito pouco, diz o Dr. Sakthivel T, cientista do Instituto Indiano de Pesquisa em Horticultura (IIHR), em Bangalore.
A equipe dele criou uma fruta híbrida, chamada Arka Sahan, que pode durar uma semana em temperatura ambiente e tem menos sementes e mais polpa.
Nos últimos 20 anos, essa variedade se espalhou pelo sul da Índia.
A mudança de 30% de polpa nas variedades selvagens para 70% nas híbridas como a Arka Sahan dobrou a produção aproveitável para os agricultores, sem precisar de mais terras, diz Sakthivel.
A equipe dele agora está pesquisando melhores formas de processar a fruta e extrair a polpa, para que ela seja usada em alimentos processados, como sorvetes e milk-shakes.
Um problema que eles estão tentando resolver é que a polpa da pinha escurece muito rápido depois de extraída. Os pesquisadores do IIHR estão testando novos equipamentos e técnicas para manter a cor leitosa da polpa por mais tempo.
Exportação e novas variedades
O estado de Maharashtra, no centro da Índia, é o maior produtor de pinha, responsável por quase um terço da produção nacional.
É lá que Navnath Malhari Kaspate cultiva a fruta há décadas.
Ele viajou pela Índia coletando sementes e as trouxe para sua fazenda, onde fez a polinização cruzada.
Ninguém tinha dado muita atenção à pinha ou feito pesquisas, então decidi continuar trabalhando nisso. Leva de 12 a 15 anos para desenvolver uma nova variedade. Não é um trabalho rápido, são décadas de experimentação, diz ele.
O trabalho dele resultou na variedade NMK-01 (em homenagem às suas iniciais), conhecida por ser muito produtiva. Ela foi lançada em 2014.
Hoje cultivamos pinha em quase 20 hectares, com uma produção de cerca de 10 toneladas por hectare. Essa variedade melhorada, que não estraga, criou oportunidades para exportação. Começamos a exportar para países do Golfo e até para a Europa, algo que nunca tinha sido feito nessa escala, diz ele.
Kaspate continua desenvolvendo novas variedades. Ele está trabalhando em um tipo com melhor aparência e maior resistência a doenças.
Manoj Kumar Barai exporta a variedade NMK-01 para os Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Europa.
Para exportação, preferimos a NMK-01 porque ela dura mais, tem casca mais grossa, mais polpa e um sabor mais doce que as outras, diz ele.
Mesmo assim, exportar uma fruta tão delicada exige um processo complicado.
Temos que planejar tudo com precisão: horário da colheita, transporte para as embalagens, traslado para o aeroporto, voos, liberação alfandegária. Cada hora é importante, explica.
O controle da temperatura é essencial.
A pinha é muito sensível ao calor, e mesmo uma exposição curta pode reduzir sua durabilidade, diz ele.
As viagens de caminhão são feitas à noite para evitar o calor mais forte.
Em regiões como Maharashtra, as temperaturas podem chegar a 40 graus, e mesmo durante o transporte pode chegar a 35 graus, o que não é ideal para essa fruta.
A fruta é pré-resfriada por cinco horas antes de ser embalada e transportada em caminhões refrigerados, e depois armazenada em câmaras frias antes de ser enviada de avião.
Caixas de papelão especiais foram desenvolvidas para proteger a fruta e mantê-la fresca.
Cada vez mais frutas estão sendo exportadas como polpa ou em pó, o que é uma revolução para a indústria de exportação, diz Barai.
A polpa é usada por fabricantes de sorvete, padarias e em cafeterias.
Ainda não é simples, pois a polpa precisa ser armazenada e transportada a -18°C.
Mas ainda é mais barato que o frete aéreo e permite que grandes volumes sejam transportados por semanas sem que nenhuma fruta estrague.
O futuro da pinha
De volta a Kolar, Shivareddy quer expandir seus negócios vendendo polpa, além da fruta inteira.
Ele planeja montar uma unidade de processamento de polpa que usaria a parte da colheita que não consegue vender in natura.
Mas extrair a polpa e resfriá-la a -20°C exige um grande investimento em equipamentos, o que, segundo ele, vai exigir uma mudança de mentalidade de muitos agricultores.
A pinha está em uma posição estranha. A demanda está crescendo, mas o cultivo não está se tornando de alta tecnologia porque a fruta é naturalmente resistente. Ela cresce em solo pobre, precisa de pouca água e sobrevive com a chuva. Os agricultores não precisam de irrigação cara, sensores ou ambientes controlados, então a adoção de tecnologia continua baixa, diz ele.

As árvores de pinha podem sobreviver meses sem serem regadas


